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Point-of-View Shot - Jurassic World (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 11.06.15

jurassicworld.jpg

 

"You just went and made a new dinosaur? Probably not a good idea..."

 

Há um lugar especial no coração de alguém que, numa insuspeita noite de verão, algures nos anos 90, se esquivava dos pais para ligar a televisão quando “Jurassic Park” era exibido pela primeira vez em canal aberto.

 

Descobriu-se a compaixão quando o Triceratopo adoeceu, a ansiedade quando uma debandada de Galimimos fugia à fome do T-Rex, o “toma lá bem feita!” quando o Dilofossauro impede Dennis de fugir do Parque com os embriões, os arrepios na espinha quando inolvidável o tema de John Williams ecoava pelo parque e a tensão pura e profunda quando aqueles dois Velociraptors encurralaram os miúdos na cozinha.

 

É pouco recomendável referir a primeira pessoa num texto que, apesar de naturalmente subjetivo, se procura fundamentalmente argumentativo e analítico. No entanto, arrisco tomar breves linhas para furar a convenção e explicar que “Jurassic Park” mudou a minha vida, porque com apenas uma mão cheia de anos de vida descobri que o milagre da sétima arte estava no seu alcance aparentemente infinito. Foi ali, com o filme de Spielberg, que o meu elo inabalável com o Cinema foi criado. E no dia em que o Parque se tornou Mundo, voltei àquela noite clandestina.

 

jurassicworld6.jpg

A ter lugar 22 anos depois do primeiro filme – e basicamente ignorando todos os acontecimentos das sequelas – a nova aventura Jurássica regressa à Isla Nublar onde o parque de dinossauros está finalmente em funcionamento e segurança... Até deixar de estar.

 

Numa nova exposição da ignorante ambição de “brincar aos deuses”, a falta de humildade humana atinge novos máximos quando a gestão do parque resolve começar a criar dinossauros geneticamente modificados, sendo a inequívoca estrela da companhia o impressionante Indominus Rex – que é, na verdade, “A” Indominus Rex. Porque é que havemos de continuar a criar espécies “mundanas” quando podemos juntar as mais perversas combinações de DNA que o tempo tentou esquecer? Evidentemente, a imprevisibilidade de tal criação leva à sua capacidade de escapar e tornar o resto do parque numa bastante completa e apetecível versão de um buffet “coma até cair para o lado”.

 

jurassicworld3.jpg

Apesar de não conseguir manter a aura emocional e o sentimento de assombro e fascínio do original de Steven Spielberg, Colin Trevorrow revela-se como um competente maestro do caos como gerador de ação.

 

Surgindo como a mais sólida (e melhor) das três sequelas, “Jurassic World” é especialmente bem-sucedido no estabelecimento do ritmo da ação que, quando arranca, explode numa montanha-russa de acontecimentos verdadeiramente entusiasmantes. Também o híbrido sintético no centro do terror da narrativa é simbólico - além do agente do caos, é uma metáfora representativa dos excessos gerados pelas imoderações do consumo e de quem produz entretenimento e a fome do lucro.

 

jurassicworld4.jpg

O diálogo não é particularmente inspirado e algumas personagens tornam-se estereótipos andantes por falta de melhor caracterização (particularmente os vilões), mas à parte da eterna questão “como é que estes tipos conseguem continuar a ser autorizados e financiados para abrir estes parques?”, “Jurassic World” consegue transcender a ideia básica de bestas que perseguem humanos em fuga e é estruturalmente bem construído, tem uma progressão dramática e de enredo relativamente convincentes e um clímax surpreendentemente satisfatório.

 

Depois de um primeiro ato gerado para fazer os queixos tombar com admiração dócil, Trevorrow transforma rapidamente esta aventura de ficção científica num elaborado exercício criativo de (re)afirmação da lei de Murphy – não só tudo o que pode correr mal vai acontecer como vai tornar-se ainda pior. Às vezes parece mesmo que Trevorrow e companhia passaram a noite anterior à escrita do argumento a encharcar-se de gomas e Coca-Cola enquanto assistiam a “Predator”, “Alien” e “The Thing” escondidos debaixo dos lençóis.

 

jurassicworld2.jpg

E apesar de o amor e respeito do realizador pela aura de “Jurassic Park” ser bastante óbvio, é no terceiro ato, algo espalhado por todo o lado, que esta sua nostalgia acaba por levar a melhor perdendo-se em referências e anotações demasiado encantadas com a sua própria importância. Não é necessária uma análise profunda para admitir que “Jurassic World” é frequentemente frívolo e autocomplacente, mas a verdade é que, surpreendentemente, na maioria das vezes, acaba por funcionar de alguma forma.

 

Chris Pratt é um herói carismático e bem-humorado, e enviamos diretamente de Portugal o prémio de "Maior Maratonista de Saltos Altos" para Bryce Dallas Howard, mas apesar de uma sólida dupla humana, são, mais uma vez, os fantasmas da maravilha extinta os principais protagonistas.

 

A magia dos animatrónicos de Spielberg está praticamente ausente num parque onde, provavelmente, 99% dos dinossauros são inteiramente gerados por computador. E se é verdade que esta visita aos milhões de anos passados parece, em certa medida, mais plástica e processada, este tipo de animação permite outros voos, estratosféricos, pela possibilidade do imaginário do cinema. E a vocação que é aqui demonstrada pelo estado de arte tecnológico é de cortar a respiração.

 

jurassicworld5.jpg

 

Num exemplo em que o todo é superior à soma das partes, “Jurassic World” é uma seta do cupido apontada ao nosso coração com síndrome de Peter Pan. Durante duas horas completas convencemo-nos de que os dinossauros estão à distância de uma viagem de barco e de que o limite da nossa imaginação é apenas o início das possibilidades de um Cinema feiticeiro na fábrica de sonhos.

 

É um blockbuster de verão à moda antiga, de coração terno e adrenalina máxima onde é o homem contra a natureza, contra a natureza (modificada). E nós, porque estamos muito mais abaixo na cadeia alimentar do que gostamos de admitir, bem podemos aplaudir, mas nunca ganhamos.

 

 

7.5/10

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Mise en Scène - JURASSIC WORLD

por Catarina d´Oliveira, em 25.11.14

Produzido por Steven Spielberg e realizado por Colin Trevorrow, JURASSIC WORLD encontra, 22 anos depois, a Isla Nublar com um parque com dinossauros totalmente funcional, tal como havia sido imaginado inicialmente por John Hammond. Evidentemente, alguma coisa vai correr mal...

 

O herói reciclado passará a ser interpretado por Chris Pratt.

 

jurassic-world.jpg

Não vale a pena tecer grandes comentários sobre o filme, mas alguns apontamentos: o foco no núcleo familiar é mantido à boa maneira de Spielberg (apesar de aqui surgir apenas como produtor); um piscar de olho claro ao Sea World; uns efeitos especiais surpreendentemente... ranhosos e meios artificiais que não me entusiasmaram muito. De resto... estou 100% a bordo!

 

 

 

 

JURASSIC WORLD deverá chegar aos cinemas portugueses em junho de 2015.

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Point-of-View Shot - Schindler's List (1993)

por Catarina d´Oliveira, em 11.04.13
"Whoever saves one life, saves the world entire"

Basta ligar a televisão parar pormos em causa toda a fé que possamos ter na racionalidade ou humanidade do Homem, que constantemente retorna ao lamaçal para chafurdar ao nível mais baixo da depravação. E se alguma parte da sabedoria popular também nos diz que ninguém muda, é com o coração pesado que constatamos que, de facto, raramente aprendemos alguma coisa com a nossa história.

 

O séc. XX foi profundamente triste nesse sentido, com duas guerras mundiais que se distinguem entre outras centenas de conflitos que é impossível contabilizar. O séc. XXI surgia com a promessa da tolerância, mas cedo demonstrou que pouco ou nada tinha sido apreendido, e em 2001 arrancava a Guerra ao Terror que durou quase 10 anos.

 

 

 

Se algum tipo de ‘conforto’ pode ser encontrado nos meandros de tanta desgraça, é a certeza de que é difícil – porém não impossível – chegar aos níveis de algo como o Holocausto, comummente associado à Segunda Guerra Mundial, e sinónimo do terror puro.

 

Naturalmente, tal marco da história moderna não poderia ser ignorado pelas artes, particularmente, pela sétima, e uma das suas mais célebres incursões tem uma origem curiosa.

 

Quem diria que seria o quintessencial mestre da fantasia norte-americana seria capaz de realizar uma das transposições para o grande ecrã mais dramáticas de um dos capítulos cruciais e mais negros história do mundo? Apesar da sua confessa notoriedade crescente já no início dos anos 90, talvez não muita gente, ou certamente menos ainda depois do desastre que certamente lhe terá provido um poderoso complexo de Peter Pan que foi “Hook” (1991).

 

 

Com 12 nomeações a Óscar e sete estatuetas arrecadadas (onde se incluíram as de Melhor Filme, Realizador e Argumento Adaptado) e integrando o 8º lugar na lista do American Film Institute que distinguiu em 2007 os 100 filmes americanos mais importantes de todos os tempos, “Schindler's List” trouxe finalmente a consagração há muito ansiada por Steven Spielberg, mas acima de tudo, um pedaço de sétima arte capaz de resistir ao teste do tempo, e que se mantém até hoje como um brilhante estudo histórico e da natureza humana.

 

Por ocasião do 20º aniversário do filme, é lançada hoje em território luso uma edição de celebração imperdível que contém, além da versão DVD e Blu-Ray do filme, ofertas exclusivas de um poster original, três postais das personagens principais e um livro de 16 páginas sobre a produção, tudo bem acomodado numa embalagem de colecionador com folha em prata.

 

Baseado no romance de Thomas Keneally – “Shindler’s Ark” -, o filme de Spielberg representa a indelével história do enigmático Oskar Schindler, um membro do partido nazi, mulherengo e especulador de guerra, que acabou no entanto por salvar a vida a mais de 1100 judeus durante o Holocausto.

 

 

Como é que um homem que não se qualifica como humanitário altruísta ou monstro terrível se situa numa sociedade como a da Alemanha do Terceiro Reich? Esta é a história de um desses homens, Oskar Schindler, cujo compromisso de crescimento individual é interrompido pela realidade gritante do desespero negro de uma era e suplantado por uma devoção à proteção do maior número de judeus possível.

 

Talvez seja essa uma das maiores virtudes desta Lista de Spielberg – o facto de sermos guiados por um protagonista que está longe da personificação da virtude, e cujos motivos e moral se alteram gradualmente com o passar do tempo e das experiencias. Na verdade, o mistério intoxicante mantém-se quanto aos seus motivos, mas no final, nada disso importa a quem se viu salvo da exterminação certa.

 

Este é o filme mais pessoal da carreira de Spielberg, que se demonstra infinitamente mais capaz quando dirige um projeto que lhe diz alguma coisa. Curiosamente, é também o seu filme menos “Spielberguiano”, abstendo-se de utilizar muitas das suas técnicas de assinatura, e preferindo um realismo cru que ressoa a verdade desde o início ao fim.

 

 

É um profundo estudo de contrastes e ironias, bem patentes, inclusive, no estado de espírito do espectador depois de assistir: é simultaneamente um filme visceralmente devastador mas profundamente esperançoso.

 

Apesar das liberdades dramáticas que Spielberg toma – como é aliás natural e comum no género – “Schindler's List” não deixa de ser uma imensa lição sobre um dos capítulos mais negros da história dos homens, mas também um estudo profundo sobre as pulsões e emoções humanas, manifestadas no bem e no mal.

 

Sem tornar o filme num festival de terror, Spielberg não se coíbe de encarar os horrores do Holocausto de frente, fazendo recurso muitas vezes da mera sugestão, que acaba por ser incrivelmente mais eficiente do que um retrato gráfico. Em última instância, permite ainda uma excelente oportunidade de alargar horizontes no que à temática diz respeito, já que a abordagem não é formulaica, nem oferece explicações simples esquivando-se inteligentemente a alguns ‘mitos urbanos’.

 

 

Tecnicamente, o percurso de mestria continua, desde a deslumbrante fotografia a preto-e-branco àquela que será, por ventura, uma das bandas sonoras mais comoventes e dilacerantes de John Williams.

 

Enquanto Liam Neeson é fantastico no retrato da ambivalência de Oskar Schindler e Ben Kingsley é por vezes esquecido face ao brilho da história do protagonista, é Ralph Fiennes a verdadeira estrela da companhia no que a interpretações diz respeito, no retrato do mal corporizado em Amon Goeth, um comandante de um campo de concentração que passa as manhãs a escolher judeus da sua varanda para serem abatidos.

 

Apesar do tema manifestamente negro e vergonhoso para uma raça que se diz racional, o filme de Spielberg é movido por uma pequena chama num antro de horror negro: uma chama de esperança e dignidade. À exceção de algumas escolhas criativas questionáveis – a maior das quais prende-se com o já ‘infame’ final escusado e indulgente – “Schindler's List” compõe-se como uma obra quase perfeita.

 

 

Schindler's List” é intransigente no retrato das várias camadas da natureza humana: quer no retrato do bem, do mal e da área cinzenta, quer na representação da ganância, ódio, luxúria, poder, e, acima de tudo, empatia e amor. O seu toque é do mais profundo na alma humana, e a catarse decorrente é tão poderosa como apenas outros momentos cinematográficos que podem ser contados pelos dedos.

 

É esta dimensão profundamente humana, que se destaca como a chama laranja ou a menina do casaco vermelho na imensidão preta-e-branca, que o distingue, não só como um dos filmes mais importantes da história, mas também como uma experiência cinematográfica e humana transcendente.

 

Porque “quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”.

 


9.0/10

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Festivais - Spielberg preside ao júri de Cannes 2013

por Catarina d´Oliveira, em 28.02.13

A organização do Festival de Cannes anunciou hoje que o realizador e produtor norte-americano Steven Spielberg vai ser o presidente do júri do prestigiado Festival de Cinema de Cannes na sua 66ª Edição, a decorrer entre 15 e 26 de maio deste ano.

 

Em comunicado oficial, Spielberg admitiu uma enorme “admiração pela resoluta missão do Festival em defender a linguagem internacional do Cinema”. Spielberg continua afirmando o festival de Cannes como “o mais prestigiado do seu tipo, o festival sempre estabeleceu o Cinema como um meio capaz de atravessar culturas e gerações”.

 

 

O Rei do blockbuster norte-americano (afinal, foi ele que começou esta saga, lá para 1975, com "Jaws") é uma presença regular em Cannes, tendo inclusive sido convidado várias vezes para presidir, recusando apenas por questões de agenda.

 

Este ano a resposta pode finalmente ser positiva e Spielberg sucederá assim no cargo da presidência do júri ao realizador italiano Nanni Moretti.

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Point-of-View Shot - Lincoln (2012)

por Catarina d´Oliveira, em 01.02.13

 

"Abolishing slavery by constitutional provisions settles the fate for all coming time. Not only of the millions now in bondage, but of unborn millions to come."

 

Tem sido um ano longo para a memória de Abraham Lincoln. No final de Maio de 2012, foi finalmente lançada uma produção diretamente-para-vídeo nos Estados Unidos chamada “Abraham Lincoln vs. Zombies”, cujo enredo não carece de grandes explicações face ao título… esclarecedor. Pouco menos de um mês depois, chegava aos Cinemas portugueses “Abraham Lincoln: Vampire Hunter”, que colocou o Presidente em confronto com os seres mitológicos mais icónicos da sétima arte.

 

Mas depois do tratamento direto e a seco de pragas de criaturas do além, é reconfortante saber que podemos despedir-nos de janeiro com um retrato mais sério, fiel e respeitador à memória do 16º Presidente norte-americano, repetida e continuamente considerado por académicos, forças políticas e público em geral como um dos três maiores (e melhores) Presidentes norte-americanos da história – acompanhado normalmente pelo espírito fundador de George Washington e pelo engenho renovador de Franklin D. Roosevelt.

 

 

Adaptado da biografia “Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln” de Doris Kearns Goodwin, a 30ª longa-metragem a estrear no Cinema com assinatura de Steven Spielberg retrata os tumultuosos últimos quatro meses de vida do Presidente titular, dando especial proeminência às temáticas da abolição da escravatura e do fim da Guerra Civil Americana, e da consequente união do país.

 

Partindo para a noite dos Óscares com 12 indicações, “Lincoln” é o título mais nomeado do lote, e não é difícil compreender porquê. 2012 foi um ano de Cinema importante para o panorama histórico e presente dos Estados Unidos, e o mais recente de Spielberg poderá bem ser aquele que mais agradará ao ego americano, apesar de ser manifestamente o mais convencional– um paralelismo claro pode ser feito com “Django Unchained” de Quentin Tarantino, como referi na análise da semana passada.

 

 

É um dos dramas biográficos mais autênticos da memória recente, e uma dramatização única da dinâmica política, que não falha em destacar em igual parte a sua natureza dicotómica que paira entre a delicadeza e a brutalidade, de acordo com a necessidade maior.

 

O argumento adaptado de Tony Kushner está povoado de discursos incendiários e de insultos ousados que saltitam entre a complexidade moral dos assuntos a discussão.

 

Em “Lincoln”, o trabalho de Spielberg é profundamente contido e elegante, abstendo-se da clara espetacularidade visual que habita tão comummente a sua filmografia. Desta feita, a abordagem é sóbria, com um relacionamento muito próximo e próprio com a iluminação e a sombra; sombra esta que caracteriza melhor que qualquer outro elemento esta Era negra da (ainda) jovem história Americana.

 

 

Sobre a relação e processo envolvidos entre a contratação de Daniel Day-Lewis ao último take gravado, podia ser escrita uma obra de três volumes. Quando primeiramente Steven Spielberg o abordou, há coisa de quase de seis, sete anos, o ator britânico recusou respeitosamente o papel. De facto, Day-Lewis chegou a recusar “Lincoln” várias vezes ao longo dos anos por se considerar incapaz e intimidado. Auxiliando-se dos antigos colaboradores e amigos Liam Neeson e Leonardo DiCaprio, Spielberg conseguiu finalmente convencê-lo. E como? A certa altura, decidiu que só faria “Lincoln” se Day-Lewis aceitasse protagonizá-lo, e seria tão simples quanto isso. Ao saber disto, o ator aceitou finalmente ler uma versão mais avançada do argumento de Kushner, e depois lá cedeu invariavelmente.

 

E Daniel Day-Lewis traz tanta nuance e profundidade a Lincoln que a crença de que estamos perante o Homem verdadeiro é quase religiosa. Não se trata apenas de uma questão física, apesar de esta só ajudar à festa – a postura, a maquilhagem, o porte fazem crer que não seria difícil colocar a sua fotografia numa nota de 5 dólares americanos e fazê-la passar por verdadeira. É muito mais que isso: é a honestidade do retrato, o peso do mundo sobre os ombros perante os obstáculos, o poder de um líder, e a ternura e crispação interna da figura mais importante de um país que se convulsa para ser ainda um bom homem de família e um bom pai. Em cada silêncio ou discurso elaborado, o Lincoln de Daniel, que diríamos quase ser o verdadeiro Lincoln, carrega em si o intelecto e visão quase serpentinos de um advogado experiente, infundido com uma paixão só reconhecível num homem das artes líricas.

 

 

A entoação e o tom de voz apenas possibilitariam reflexão para um artigo completo, mas fá-lo-emos brevemente. Muitas vozes se levantaram, surpreendidas pela forma como Lincoln soa a partir do retrato de Daniel Day-Lewis, e apesar desta opção criativa ter partido muito do seu próprio processo pessoal de criação de uma personagem, a verdade mais correta é de que existem vários registos de indivíduos que chegaram de facto a conhecer o Presidente e se surpreenderam face à justaposição da sua figura imponente e marcante, com o seu tom de voz atípico – não grave, profunda ou forte, mas ao contrário, num registo mais alto e agudo.

 

No elenco secundário, vale a pena exaltar a personificação perfeita que nos convém Tommy Lee Jones como o Republicano radical Thaddeus Stevens, homem marcado pela dureza da vida e com uma língua tão afiada que não temos dúvidas acerca da sua capacidade de operar nas cozinhas mais movimentadas do mundo. De nota obrigatória é ainda a referência à performance irascível de Sally Field como a emocionalmente volátil e quebrada Mrs. Lincoln.

 

 

O grande problema de “Lincoln” poderá ou não partir do distanciamento que um público não-americano criará na sua experiência. De todo o modo, a questão não tem necessariamente que ver com a sua concentração temática num período e contexto precisos ou propriamente com uma ausência de alma – a sua presença é, aliás, marcante – mas um desvario relativo e recorrente da mesma. O facto de ser em grande medida um drama político quase procedural não é a questão, mas a abordagem segura, sequiosa de cair em boas graças gerais torna-o um produto pouco entusiasmante e pouco vincado em personalidade ou profundidade, faltando-lhe sobretudo exploração de motivos e entrelinhas. Até a família, um elemento tão recorrente e revisitado na filmografia de Spielberg parece aqui obliterado se pusermos de parte a relação marital superficialmente explorada entre Abraham e Mary Todd.

 

Apesar de pelo menos aparentar falhar o estatuto de clássico político instantâneo – só o tempo poderá dizer em que prateleira da História do Cinema Americano se situará -, não devemos considera-lo por menos: “Lincoln” é tão excecionalmente relevante como revisitação histórica de um ícone americano como de crucial importância na relação com o ambiente político atual, e por tudo isso e mais 5 dólares, é um dos filmes mais importantes da carreira de Steven Spielberg.

 

 

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