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Point-of-View Shot - The Diary of a Teenage Girl (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 05.04.16

TheDiary2.jpg

 

"I had sex today... Holy shit"

 

Todos o vimos acontecer antes – ou por outra, tentar acontecer. É que a cena indie está pejada de tiros de pólvora seca quando se carregam os canhões da exploração do despertar sexual feminino. De facto, e apesar de as tentativas não serem propriamente raras, são escassos os exemplos que não se revelam demasiado moles ou genéricos ou por outro lado mal-intencionados na abordagem. Ora não nos parece de todo descabido iniciar esta análse assegurando que o assertivo e vigoroso filme de Marielle Hellner consegue fazer o que tantos outros apenas desejaram.

 

Minnie Goetze tem 15 anos, quer ser desenhadora de comic books e está a crescer no ambiente frenético da São Francisco dos anos 70, em plena ressaca do Flower Power. É uma típica adolescente em quase tudo, exceto no facto de descobrir o sexo com o namorado da sua mãe, com quem acaba por manter uma relação, mesmo depois desta o descobrir... Mas desengane-se quem visualiza Minnie como uma prima não muito afastada de Lolita. Minnie é entusiástica, é louca por sexo e não tem medo de fazer algo relativamente a essa situação, o que se coaduna na perfeição com o sentimento de emancipação e libertação sexual que se faz sentir ao longo de toda a película.

 

diary-of-a-teenage-girl.jpg

 

A base dos trabalhos é o romance homónimo e (semi-)autobiográfico de Phoebe Gloeckner, e ainda que a história de Minnie seja, de um modo geral, bastante previsível, é a abordagem do seu retrato, tão resoluta quanto refrescante, que o diferencia dos demais primos afastados.

 

Seria difícil de prever que uma tão confiante e arrojada produção surgisse das orquestrações de um maduro cineasta, mas a verdade é, de facto, que este é o primeiro filme dirigido por Marielle Heller. A abordagem desta peculiar comédia dramática sobre a nem sempre gloriosa transição entre o início da sexualidade juvenil para a assumida maioridade é absolutamente desarmante, tornando difícil relembrar um outro filme sobre o crescimento/adolescência (ou coming-of-age, à falta de um melhor termo na língua de Camões) tão apostado na manutenção de uma posição livre de julgamentos e críticas aos seus protagonistas.

 

Fundido numa paleta inspirada em polaroides e embebida numa banda-sonora apaixonada pelos anos 70, o filme mantém-se fiel às suas origens da B.D. ao incorporar algumas versões animadas de ilustrações da autora – o dispositivo que já não é novo nas lides indie ganhar aqui uma dimensão especial e intencional ao dar vida às fantasias febris de Minnie que, por sua parte, é também uma aspirante a artista gráfica.

 

The-Diary-of-a-Teenage-Girl_Still-5-0-2000-0-1125-

  

Bel Powley é absolutamente sensacional ao trazer Minnie à vida, numa performance excecionalmente corajosa e modulada. A sua inconstante protagonista é um ponto de desequilíbrio constante, podendo ser amorosa e inocente, para no momento seguinte se revelar quase cruel e manipulativa. É um poço de contradições que caminha entre a infantilidade e a “adultez”, a vulnerabilidade e a emancipação. Ela não é um cliché ou um poster ou uma figura de representação – é o desabrochar de uma jovem mulher disposta a conseguir o que quer, seja isso o que for.

 

Como uma mãe com sérios défices de capacidades maternais, Kristen Wiig vem reiterar o seu incrível talento para as lides dramáticas (que se vêm acrescentar ao seu impecável mas já bem conhecido e glorioso timing cómico). No entanto, o papel mais desafiante do plano secundário é inequivocamente o de Monroe, que se faz acompanhar do símbolo universal de tendências sexuais duvidosas: um bigodinho isolado. Correndo sempre o risco de caminhar perto demais de uma caracterização reles e tirana, nunca é vilanizado pelo argumento ou pela fantástica performance de Alexander Skarsgård, que apesar de lidar com o “boneco” mais difícil de criar empatia, consegue desenvolve-lo como alguém surpreendentemente amável para Minnie e Charlotte.

 

Globalmente, há níveis do questionável comportamento de Minnie que não são tão óbvios construtores da persona de uma mulher adulta e confiante, mas The Diary of a Teenage Girl é um inequívoco hino à emancipação feminina e à valerosa mensagem de necessidade de autoestima.

 

lead_960.jpg

  

Moralmente complexo e por vezes desconfortavelmente próximo de verdades desassossegadas, o filme de Hellner mantém uma honestidade fascinante, dura e frustrante – um espelho da própria adolescência. Aqui temos uma janela sem filtros do universo de sexualidade, manipulação e exposição franca de Minnie sobre a necessidade de ser desejada, amada e abraçada.

 

“Isto é para todas as raparigas quando tiverem crescido”, partilha Minnie com o seu fiel gravador de cassetes. Não sendo necessariamente um crowd pleaser no seu sentido mais tradicional, The Diary of a Teenage Girl tem toda a frescura, determinação e desembaraço para se tornar um marco nesse célebre sub-género de culto que são os filmes de crescimento.

 

E o tempo não deverá tardar a validar esta previsão.

 

 

8.0/10

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Point-of-View Shot - Trumbo (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 23.02.16

TRUMBO-DEST.jpg

 

"What the imagination can't conjure, reality delivers with a shrug"

 

Se há coisa que não falta a Trumbo é um conjunto de intrigantes razões que edificaram a vontade que há muito trazíamos de lhe explorar os segredos.

 

A primeira é, por ventura, a mais óbvia: Bryan Cranston. Isto porque, apesar de já não ser uma cara nova nas lides de Hollywood, as performances que mais o marcaram no grande ecrã foram sobretudo secundárias. De O Resgate do Soldado Ryan, a Drive, passando por Argo, Contagion, e muitos outros, fica a sensação que Cranston não teve até aqui a oportunidade de explorar as suas máximas potencialidades dramáticas em Cinema, e talvez tenha sido o Walter White de Breaking Bad a ajudar a quebrar o enguiço.

 

Prosseguimos com o realizador Jay Roach que aqui embarca na sua primeira aventura dramática. Até aqui, a sua experiência ia pouco além das comédias de cariz físico e palerma de Austin Powers e a sátira familiar de Uns Sogros do Pior.

 

trumbo.png

 

Por fim, o elemento mais curioso, que é tão somente o objeto em observação macroscópica: Dalton Trumbo, um histórico argumentista da Era de Ouro de Hollywood, celebrado pelo engenho nas palavras, renegado pelas suas opções políticas – e enquanto é possível que o seu nome pouco dissesse a ouvidos destreinados, as suas obras deixam-se falar por si: Roman Holiday(1953), The Brave One (1956),  Spartacus (1960), Exodus (1960).

 

Estavamos oficialmente interessados, mas estaria Trumbo à altura das modestas mas sólidas expectativas que criamos?

 

O enredo ambienta-se, na sua maioria, aos anos 40, e temos encontro marcado com a carreira de sucesso do argumentista Dalton Trumbo. No entanto, e ao espelho do que ainda hoje acontece na indústria das montanhas-russas do sucesso e dos 15 minutos de fama, o seu estatuto de génio inabalável é fortemente bombardeado quando ele e outras figuras de Hollywood entram na lista negra pelas suas convicções políticas. Trumbo, que sempre se recusou a fazer segredo da sua posição política e social, juntamente com muitos dos seus pares, tornou-se assim vítimas da histeria do anti-Comunismo que reinou na América do pós-guerra, chegando, inclusive, a ser sentenciado a uma pena na prisão por desacato. A infame lista negra de “perigosos radicais” que viam o seu caminho interdito aos grandes estúdios não parou de inchar durante vários anos. Esta é, portanto, a história da sua luta contra o governo norte-americano e os patrões dos Estúdios, numa guerra pelas palavras e a liberdade, que envolveu todos em Hollywood, desde Hedda Hopper e John Wayne, até Kirk Douglas e Otto Preminger.

 

trumbo-4.png

 

Se isto vos parece a receita perfeita para um testemunho maçudo incognoscível sobre oposições ideológicas e políticas, podem ficar descansados: não é preciso estudar a vida de Dalton Trumbo antes do filme, e muito menos os princípios do Comunismo – desde que não esperem entender as suas raízes meramente a partir deste objeto cinematográfico.

 

De facto, Jay Roach inspira-se nas suas raízes humorísticas para conferir alguma leveza a um dos períodos mais negros na liberdade criativa e de expressão em Hollywood, transformando Trumbo numa fatia leve e informativa de uma das muitas e variadas eras da injustiça na indústria – um tema sempre atual, como podemos observar, num outro prisma, nas recentes movimentações contra a falta de diversidade na representação de papéis nas grandes produções de Hollywood. O argumento de John McNamara é também neste sentido arejado e relativamente capaz de condensar um conjunto de eventos complexos em duas horas de entretenimento acessível e informativo.

 

trumbo-3.png

 

Mas o maior problema de Trumbo surge justamente da batalha entre a informação que entretém e o retrato de uma Era verdadeiramente negra para o Cinema. Na verdade, a necessidade de entrecortar constantemente momentos de drama e seriedade com pedaços de comédia em forma de algodão doce é que se perde na tradução o tema muito, muito assustador que se pretende cobrir. E esta falta de alma e de predisposição a abraçar a seriedade sem medo de aborrecer o público não é ajudada pelo facto de o protagonista parecer repetidamente capaz de resolver todo e qualquer problema que lhe surja no caminho, qual super-herói do universo Marvel.

 

No elenco, o líder dos “Vingadores das palavras” é Bryan Cranston, que captura toda a nuance gentleman que envolvia Trumbo, bem como a sua inesgotável fonte de espirituosa produção de palavras – ditas e escritas. Do mesmo lado da barricada, vale ainda a pena destacar os complacentes companheiros de batalha, particularmente a figura compassiva e contrastante de Louis C.K., e ainda o gigantesco comic relief patrocinado por John Goodman como o irreverente Frank King, chefe de armas do estúdio de série B (ou Z?) King Brothers Productions.

 

trumbo-5.png

 

Do outro lado do campo de batalha jaz um dos maiores problemas de Trumbo: os vilões, pouco interessantes e dolorosamente unidimensionais. De facto, numa passagem tardia do filme, Trumbo sugere que não procuremos por heróis ou vilões no meio do que aconteceu, mas apenas vítimas. Não deixa de ser curioso que o próprio filme que relata tais ideais seja pouco capaz de os transferir para a película – ainda que encontre um certo grau de redenção para pelo menos um dos seus personagens mais moralmente questionáveis.

 

Resumindo e concluindo, o filme de Jay Roach é um exercício irregular de entretenimento que se quer relativamente informativo, mas não demasiadamente dramático. E é nesse equilíbrio desequilibrado que aniquila as suas próprias possibilidades de se tornar um filme excecional e importante: porque afinal de contas, apesar de representar uma luta ganha, Trumbo é um triunfo relativamente modesto – sólido e satisfatório, mas sem alma ou ambição que verdadeiramente merecia.

 

 

7.0/10

 

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Point-of-View Shot - The Revenant (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 21.02.16

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"I ain't afraid to die anymore. I'd done it already"

 

 

Um poema frenético cravado a frio na pele ensanguentada, The Revenant revisita o mito americano com a crueza que mais com ele condiz – venal, bruta e vingativa.

 

Numa expedição pelo desconhecido território americano, o lendário explorador Hugh Glass é brutalmente atacado por um urso e deixado como morto pelos seus companheiros de caça. Na luta pela sobrevivência, Glass resiste a um sofrimento inimaginável, bem como à traição de John Fitzgerald, um dos seus companheiros de expedição. Guiado pela sede de vingança e o amor da sua família, Glass terá de enfrentar um inverno rigoroso numa busca incessante pela sobrevivência e redenção.

 

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De Leonardo DiCaprio já se disse tudo o que virtualmente se poderia dizer de um ator absolutamente dedicado à sua arte. Depois de anos a fio a usar memes e engenhos humorísticos para gozar o facto de nunca ter levado um Óscar para casa – não obstante as vezes que o mereceu – será, certamente, este o ano que lhe quebra o enguiço. E apesar de ser uma performance profundamente instintiva, fisicamente complexa e matizada e extremamente impressionante, é difícil encaixá-la sequer no top 3 do cânone do ator, o que não deixa de parecer mais uma curiosa confirmação da célebre asserção de Katharine Hepburn sobre as estatuetas douradas: “os atores certos ganham sempre o Óscar, mas pelos papéis errados”.

 

Tanto ou mais surpreendente é Tom Hardy que aparece fiel à forma que lhe conhecemos – o que significa 100% carismático e 50% ininteligível no discurso. Fitzgerald não é um personagem propriamente complexo, aparecendo como um vilão ligeiramente cartoonizado, cujo momento mais humano surge quando descreve pormenorizadamente o que sentiu quando lhe arrancavam o escalpe a sangue frio. Fun!

 

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Mas voltando às considerações gerais, o novo filme de Alejandro G. Iñárritu ambienta-se a um vértice fascinante da ainda breve história americana, mesmo antes de os caminhos serem trilhados, de os cowboys serem intitulados, de os homens armados de emblemas e fogos abrirem caminho pelo Oeste. É quase um cenário Bíblico, num mundo aparentemente sem lei onde a justiça se faz “olho por olho, dente por dente”. Aqui a única lei que impera é a da vingança em bruto, a única que importava naquele momento singular da história, aquele momento que se propaga numa saga de dor e determinação.

 

The Revenant é, assim e sem qualquer margem para fantasias, um violento western que só parece passado num cenário nevoso para expor ainda mais o sangue, suor e membros decepados. Iñárritu maravilha-se com a virgindade da terra, contraposta com a malevolência humana – a simples selvajaria inocente de tudo, desde as árvores sem fim, aos prados cobertos de branco, aos rios enraivecidos. Digamos que, em diversas formas e medidas, é, para o bem e para o mal (já lá iremos) o Gravity dos westerns - visceral e de tal forma eletrizante que transcende a própria narrativa.

 

O pano abre numa espécie de floresta alagada e húmida, de aspeto pouco convidativo, atolada de homens que trocaram qualquer noção de conforto pela possibilidade de fazer algum dinheiro extra no mercado das peles. Enquanto o gangue discute (pouco) alegremente assuntos mundanos, as setas começam a voar, e porque Iñárritu filma tudo com uma misteriosa obsessão pelo natural, é quase possível sentir a roupa pejada de lama, a água a consumir-nos os ossos, o sabor metálico do sangue a inundar-nos a boca. Toda a cena é filmada ao estilo de Birdman, o que significa que navegamos etereamente pelo caos, saltitando de personagem em personagem, enquanto estes rijos do Oeste tentam escapar vivos à fúria dos Índios que apenas procuram recuperar uma “princesa” desaparecida. E esta cena é apenas uma miniatura de tudo o resto.

 

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É uma espécie de paradoxo – aparentemente desnecessariamente cruel, mas é essa mesma dimensão ríspida que mantém a noção de que o Velho Oeste Selvagem era, de facto, desnecessariamente cruel. É certo que quase parece retirar um prazer retorcido da sua própria sanguinolência, num niilismo resvalado numa escuridão que ilustra sem espinhas que a selvajaria do Oeste selvagem não significava propósito, ou independência, ou liberdade. Aqui o selvagem era genuinamente bruto, desumanamente natural e inescapavelmente imperdoável.

 

The Revenant é visceralmente diferenciado de Birdman, mas também dos enredos entreligados dos anteriores filmes de Iñárritu (onde se contam, por exemplo, 21 Grams e Babel). Desta feita a história é extraordinariamente simples, inclusive a um ponto prejudicialmente detrimental. De facto, a ambição filosófica e moral é tão exacerbada que no momento em que chegamos à ansiada represália, depois de tanta dor, morte, planos da natureza e minutos inexplicavelmente queimados, é muito difícil não a sentir como uma relativa desilusão.

 

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Na verdade, o que fez Birdman funcionar tão bem foi o harmonioso casamento entre o virtuoso estilo do realizador e o estado caótico da psique das suas personagens. Todo o pandemónio miraculosamente organizado trabalhava em prol da história de um homem que, procurando reencontrar-se consigo mesmo, se perdia ainda mais. Em The Revenant, o estilo e a história não só não parecem estar na mesma página – parecem arrancados de livros diferentes. O investimento feito em encantar os nossos olhos através de cenas que são manifestamente indeléveis (Emmanuel Lubezki destaca-se uma vez mais como um dos mais talentosos e disruptivos diretores de fotografia dos nossos tempos), o mais recente filme de Iñárritu não consegue deixar de se sentir frustrantemente frio, incapaz de nos assoberbar o coração como nos revira as entranhas.

 

Feitas as contas, The Revenant parece mais uma experiência do que um filme propriamente completo e totalmente coerente. Todavia, esse tipo de cinema, esse raro tipo de cinema que nos transporta inesperada e inescapavelmente para um outro tempo e espaço, ao ponto de lhe cheirarmos os odores, de lhe sentirmos os chãos, de lhe sofremos as dores, é sempre bem-vindo.

 

 

7.5/10

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Point-of-View Shot - The Martian (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 07.10.15

martianos.jpg

 

 

 

 

LOG ENTRY: 28 SETEMBRO, 2015

User ID: catarina_doliveira

Host Name: close-up-blog

Host address: http://close-up.com.pt/

Message Type: pré-descrição-antestreia.txt

Message Level: 1

 

 

Message Text:

Saímos de casa pelas 20h, com aquele atraso que já nos é característico. Sempre fomos conhecidos, com alguma graça, como “a família que come muito depressa”, pelo que chegar a horas à sessão de antestreia de “The Martian” não me parecia, sequer, um desafio.

 

Não o foi.

 

Entramos na sala e sentamo-nos na fila encostada à esquerda, mesmo perto das escadas - uma escolha infortuna para quem teve de levar com um grupo de estafermos juvenis demasiado entusiasmados com uma simples ida ao cinema. Há piadas repetidas atá à exaustão. Há conversa de café durante todos os trailers, mas ao volume que tentaríamos falar numa discoteca. Há, inclusive, uma das criaturas que se sente particularmente pasmada porque está a experienciar pela primeira vez a tecnologia 3D, e expressa-se perante tal alegria com muita desenvoltura. Provavelmente, haverá ainda um soco na boca de alguém se isto não acalma.

 

Esperam-nos duas horas potencialmente interessantes e, provavelmente, muito irritantes.

 

 

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LOG ENTRY: 29 SETEMBRO, 2015

User ID: catarina_doliveira

Host Name: close-up-blog

Host address: http://close-up.com.pt/

Message Type: pós-descrição-antestreia.txt

Message Level: 2

 

 

Message Text:

 

Há boas e más notícias – a má é que aqueles intervalos continuam a ser estupidamente anti climáticos. A boa é que, de facto, durante o filme, a pitalhada tomou um calmante e manteve-se controlada.

 

Ah, mas afinal há também uma ótima: “The Martian” é tremendo a vários níveis. A crítica faço-a nos próximos dias, porque hoje ainda tenho trabalho, um curso para me inscrever, uma visita familiar para fazer e um jantar fictício para pôr ao lume.

 

 

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LOG ENTRY: 30 SETEMBRO, 2015

User ID: catarina_doliveira

Host Name: close-up-blog

Host address: http://close-up.com.pt/

Message Type: sinopse-apresentação.txt

Message Level: 3

 

 

Message Text:

 

Durante uma missão tripulada a Marte, o Astronauta Mark Watney é dado como morto após uma tempestade e deixado para trás pela sua tripulação. Mas Watney sobreviveu e encontra-se preso e só num planeta hostil. Com escassos mantimentos, ele terá que contar com a sua criatividade, inteligência e espírito de sobrevivência para encontrar uma maneira de enviar para a Terra um sinal de que está vivo. A milhões de quilómetros de distância, a NASA e uma equipa de cientistas internacionais trabalham incansavelmente para salvar o astronauta. O mundo une-se por uma causa – trazer Watney de volta.

 

Baseado no romance de Andy Weir – que por si só embarcou numa jornada galáctica desde a publicação gratuita e integral online, para o download via Kindle, para um bestseller internacional que gritava por uma adaptação a pontos de se ouvir no espaço – “The Martian” é uma mistura ajuizada do técnico e do pessoal, das viagens exteriores e interiores, e do trabalho de equipa e a glória individual.

 

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LOG ENTRY: 1 OUTUBRO, 2015

User ID: catarina_doliveira

Host Name: close-up-blog

Host address: http://close-up.com.pt/

Message Type: contextualização-temas-observações.txt

Message Level: 4

 

 

Message Text:

 

É a terceira aventura espacial consecutiva a cair-nos ao colo juntamente com as folhas amareladas pelo outono. Sem a ambição técnica de “Gravity” ou a aspiração transcendente de “Interstellar”, é um esforço mais terreno e alicerçado na nossa realidade, e talvez por isso mesmo, ligeiramente menos espetacular mas mais relacional - o épico de Ridley Scott não tropeça na zanga com o incontrolável ou na introspeção perante o fim. “The Martian” é, antes, um objeto de intervenção e uma celebração da ingenuidade humana que só é equiparada pela sua resoluta vontade de sobreviver.

 

À semelhança de “Apollo 13”, pode ser considerado como um crowd-pleaser sem que essa categorização seja pejorativa. Foi cuidadosamente desenhado para nos transportar para um local que temos dificuldade em imaginar, mas que ainda assim é próximo o suficiente para que nos consigamos relacionar com ele. É maior do que nós, mas não demasiado distante. Não é demasiado complexo, mas lida com temas intrincados com discernimento suficiente para reconhecer a inteligência devida da audiência, que deve, por si mesma, deduzir algumas das eventualidades. No final, reclamamos a recompensa.

 

No livro, Weir baseou-se na construção de cenários plausíveis de um ambiente hostil para a aplicação do engenho de Watney e o desenvolvimento das consequências dos seus atos e o filme deixa-se transportar por essa aderência escrupulosa à ciência. As técnicas de storytelling utilizadas são largamente bem-sucedidas, repescando alguns dos sucessos do seu parente literário – como as log entries levadas a cabo por Mark, com meia razão para quem as descobrir um dia, e meia razão para não enlouquecer – ainda que se torne rapidamente aborrecido colocar personagens a ler em voz alta as mensagens que escrevem.

 

Completamente livre de enredos secundários de artifício – estabelecendo o foco geral na perspetiva de salvamento de Mark, quer em Marte, quer no espaço, quer na Terra – Drew Goddard instituiu um argumento musculado e sem gorduras adicionais, o que funciona simultaneamente como uma das suas maiores virtudes e uma das suas mais problemáticas vertentes.

 

Já percebemos qual o ponto de vista positivo desta escolha criativa – o foco absoluto e total em Watney, sem distrações – mas o potencial negativo de tal predileção é igualmente óbvio. A partir de certa altura, torna-se óbvio que não estamos a observar um homem a lutar contra o impossível mas a desafiar as probabilidades – uma diferença subtil, mas crucial já que impede que “The Martian” instile totalmente o sentido de urgência emocional que pretende. Este é um problema que se reflete também nas personagens, particularmente em Watney, que raramente vemos cair na fragilidade humana, ou sofrer da isolação prolongada ou da frustração da tentativa-erro.

 

Mas este afastamento do sentimentalismo é uma das marcas de Ridley Scott, e se é para o fazer, mais vale embarcar com um mestre. Porque da mesma forma que não o usa para nos manipular emocionalmente, também não cede à necessidade de o trazer à tona quando é conveniente à história – algo que os primos “Gravidade” e “Interstellar” fizeram sem grandes cerimónias. Não há reflexões teológicas, ou pressões psicológicas com familiares amados à distância (não ao ponto de dominar o enredo), ou afirmações espirituais. Em vez disso, estamos perante um tributo ao poder da ciência e do espírito humano.

 

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LOG ENTRY: 2 OUTUBRO, 2015

User ID: catarina_doliveira

Host Name: close-up-blog

Host address: http://close-up.com.pt/

Message Type: elenco.txt

Message Level: 5

 

 

Como o “homem que dirige o espetáculo”, Matt Damon dá-nos a sua melhor e mais modulada performance dos últimos anos – cuidadoso para não tornar Watney num cérebro arrogante e inatingível e prudente na representação da fragilidade emocional da sua situação.

 

O superelenco secundário assume equivalência futebolística com um Barcelona ou um Real Madrid - Jessica Chastain, Chiwetel Ejiofor, Jeff Daniels, Sean Bean, Michael Peña, Donald Glover e Kristen Wiig – sendo incapaz de oferecer uma única performance preguiçosa. Todos são largamente unidimensionais e pouco desenvolvidos, mas em casos raros em que tudo o resto é tão bem-feito e focado, torna-se uma virtude. Não se perde tempo em flashbacks, histórias de vida ou temas arrastados. A contenção também é uma arte – onde um dos melhores exemplos aflora quando uma das cenas mais poderosas é um momento silencioso de devastação quando Watney descobre as suas batatas destruídas.

 

martian5.jpg

 

 

 

LOG ENTRY: 3 OUTUBRO, 2015

User ID: catarina_doliveira

Host Name: close-up-blog

Host address: http://close-up.com.pt/

Message Type: considerações-finais.txt

Message Level: 5

 

Message Text:

No meio da ode à desenvoltura humana e do exercício extremo à capacidade de resolver problemas, no final de contas, tudo depende da intensidade com que torcemos por Watney e, sobretudo, da medida em que acreditamos nele e no significado da sua história.

 

Por mais parolo e utópico que possa soar, “The Martian” traz perspetiva: de considerar as possibilidades infinitas do espaço, e os alcances desconhecidos do desbravamento científico, e a necessidade de perseverança perante um cenário de aparente total negatividade e a força motriz de uma causa que nos mova coletivamente numa mesma direção. Por uma vez não ficamos à espera de sequelas, ou videojogos, ou merchandising barato, mas de oportunidades de evoluir, e prosperar, e ir mais além

[……………………CRITICAL ERROR…………………..]

 

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[NEW ENTRY - TRAVEL LOG]

 

CCU - Daqui fala o Controlo de Críticas do Close-Up, Houston.

 

Houston – Comunique.

 

CCU - Estamos neste momento e finalmente a levar a cabo o arranque do Planeta Vermelho e confirmamos que o novo filme de Ridley Scott é, de facto, entretenimento pipoca ainda que do mais alto calibre, como tínhamos antecipado no relatório preliminar.

 

Houston – OK. Preparamo-nos para o lançar na rota mainstream, órbita blockbuster do Planeta Terra.

 

CCU – Afirmativo. No entanto, reforçamos que representa também um farol de oportunidade. De propiciar soluções, de instigar discussões, de inspirar gerações. A escolha passa por debater as suas faltas e diminuir os seus feitos ou… abraçar o seu apelo universal e utilizar a sua ficção para inspirar a potencialidade da realidade de uma raça que deve manter-se humilde e unida mas orgulhosa na sua ambição. Pode parecer inocente, mas vamos apostar segunda opção.

 

Houston – Recebido e confirmado. Posicioná-lo-emos no quadrante de potencial inspirador.

 

CCU – Afirmativo. Houston, we (might) have a miracle.

 

 

[END OF TAPE]

 

 

8.5/10

 

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Point-of-View Shot - Everest (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 29.09.15

 

 

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"Something beyond the power of words to describe"

 

 

Everest” é, no fundo, como o verdadeiro Evereste: grande, impressionante, aterrador, mas sobretudo impiedoso – para as personagens e para a audiência.

 

Baseado numa expedição verdadeira que teve lugar em 1996, o épico de Baltasar Kormakur documenta a jornada de diferentes grupos turísticos que pretendem chegar ao afamado ponto mais alto do planeta. Simultaneamente, passa a primeira hora a justificar porque é que esta é a aventura de uma vida e a segunda hora a discorrer razões pelas quais é melhor ideia ficar em casa a jogar solitário debaixo de uma mantinha de lã.

 

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Factual e tecnicamente preciso, é uma aventura cinematográfica “à antiga”, muitíssimo ajudada por uma tecnologia estado de arte (e em estado de graça). A fotografia é de cortar a respiração – experimentem só espreitar os Himalaias em glorioso IMAX - ainda que se perca, mais no final, entre elementos que não conseguimos totalmente discernir.

 

A construção da tensão é pausada, mas segura e por isso mesmo muitíssimo bem-sucedida. O primeiro ato é especialmente bem edificado, estendendo-se o tabuleiro, alinhando-se os jogadores e esclarecendo as regras do jogo – é aqui que sabemos quem é quem, o que faz e qual o plano para a escalada.

 

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No segundo ato, o caos instala-se – na ação e no ecrã. No meio de tempestades e histórias cruzadas, existe por vezes a dificuldade em discernir personagens ou posições, mas sobretudo sente-se a incerteza de uma base imaginária – enquanto os sobreviventes conseguiram fazer relatos ricos e detalhados sobre os pormenores até à escalada e descida finais, existem logicamente passagens das quais não há registo, ficando à mercê da ficção criada pelos argumentistas. E aqui, pela fenda de uma porta mal fechada, entra como se de uma corrente de ar fria se tratasse algum melodrama que até ao momento tinha estado (e bem) ausente.

 

Kormakur leva o tempo que precisa para deixar assentar a tragédia e o caos. A abordagem aos acontecimentos é a de um slow-burner, o que faz com que só nos demos conta da precariedade da situação quando já não há volta a dar. Basicamente, tudo se transforma numa orgia de sofrimento em 3D que se sente mais nas entranhas do que na alma.

 

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É que, como é recorrentemente o caso em Hollywood, a magnitude da produção engole o seu próprio coração. Infelizmente, quase tudo o que não é puramente técnico resulta mal ou apenas bem o suficiente para não ser totalmente destrutivo.

 

Com um elenco tão vasto e vistoso, apenas duas ou três performances conseguem destacar-se – particularmente Josh Brolin e John Hawkes – o que é um problema quando o rol de mortes se começa a evidenciar um curioso e desumanizante exemplo vivo de “Quem é Quem”. Quanto à quata feminina– constituída pelo talento de Robin Wright, Keira Knightley e Emily Watson – fica renegada à eterna expressão de preocupação no rosto enquanto esperam por notícias cada vez mais terríveis ao lado de um telefone.

 

A boa notícia é que é intenso e aterrador o suficiente para congelar e entorpecer o corpo todo. A má notícia é que não é quente o suficiente para aquecer o coração - é melhor trazer um agasalho.

 

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Há, algures, um “Everest” mais humano, onde os personagens são explorados de forma justa para a audiência e, no fundo, humanizados. Há, algures, um “Everest” mais ambíguo, onde não temos de caminhar de mão dada enquanto nos explicitam exaustivamente motivos nobres para atos maiores que a vida. Há, algures, um ”Everest” mais controverso, onde se coloca o dedo na ferida no que respeita a negócios construídos sob bases frágeis, que examinam expedições onde os líderes não, são, na mais pura das verdades, profissionais. Há, algures, um “Everest” melhor.

 

No formato em que existe, “Everest” é um épico de aventura competente, mas não esmagador. Afinal, e tal como alguns dos seus protagonistas, acaba por não atingir o pico.

 

 

6.5/10

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Point-of-View Shot - Irrational Man (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 21.09.15

irrational man

 

"Anxiety is the dizziness of freedom"

 

Para que não haja margem para dúvidas: Woody Allen é um dos cineastas mais prolíferos, peculiares e talentosos da história do Cinema. Todos os anos, quando o verão dá as últimas cartadas e a sala de cinema começa a ser um cenário mais aprazível do que a areia e o mar sem fim à vista, habituamo-nos a ter em sala um dos seus caracteristicamente palavrosos e intelectualmente estimulantes filmes.

 

E há um certo jogo duplo em todo este processo. Entre a condescendência e a admiração pelo engenho de um maestro, sabemos que o que lá vem é a marca de um génio, mas também mais uma variação de algo que já vimos, onde o fator surpresa se reduz a pouco mais do que o elenco renovado.

 

Aprendemos a esperar que dele não venham filmes maus – afinal, Woody Allen é um resoluto exemplo de que não se desaprende a andar de bicicleta e há sempre um conjunto sólido de elementos de redenção. No entanto, sabemos que algumas das suas incursões são boas, outras menos boas, mas há ainda uma assombrosa quantidade daquilo que corriqueiramente designamos de obras-de-arte.

 

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Patinando algures entre a primeira e segunda categoria, “Irrational Man” não é uma obra-de-arte.

 

Trocando um pastelão palavroso por poucas palavras, o mais recente filme do realizador nova-iorquino versa sobre Abe Lucas, um torturado e fatalista professor de filosofia que se envolve com uma aluna curiosa e fascinada pela sua carismática figura e uma outra professora de meia-idade descontente com as parcas ofertas da vida familiar tradicional. Um dia, um único ato existencial muda tudo – em Abe e em todas as relações que mantém.

 

Como uma série de outras obras da filmografia de Woody Allen, “Irrational Man” equilibra motivos sombrios na destreza de uma leviandade aparente. Repescando temas de “Crimes and MisdemeanorsCrimes e Escapadelas” e mesmo “Match Point”, Allen encontra ainda em Dostoyevsky uma inesgotável fonte de inspiração – aqui também em sentido literal, já que o filme é levemente inspirado em “Crime e Castigo” do autor russo.

 

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Sobre o choque entre a teoria e a prática e a vida e as suas dores, o argumento, repleto de niilismo e moralismo na zona cinzenta, retalha-se numa ironia afiada e um núcleo cerebral delicioso. O problema apresenta-se quando o conteúdo filosófico e intelectual não consegue relacionar-se com substância emocional suficiente que nos invista.

 

É possível que este seja um dos filmes mais focados e inteligentes de Woody Allen, mas é talvez também esta arrumação pouco neurótica que contribui para a sensação de estarmos a ver um simulacro em vez de uma história. No final de contas, tudo parece meio maquinado e teatral.

 

Nas interpretações, e não primando pela subtileza na performance, Joaquin Phoenix encaixa tão bem em Abe quanto oreos com um copo de leite. Por outro lado, Emma Stone tem uma segunda oportunidade bastante mais inspirada num filme de Woody Allen, contribuindo para a construção da jovem Jill com um charme inocente de alguém que procura resposta às questões mais profundas da vida. No panorama secundário vale a pena destacar a estrela da matiné, Parker Posey, cuja insatisfeita professora de ciências é incisiva, amarga, triste e hilariante ao mesmo tempo.

 

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Ainda no panorama técnico, vale a pena fazer uma melódica nota à banda sonora dominada por Bach e Ramsey Lewis Trio e ainda à fotografia leve e vibrante e Darius Khondji que entra em saudoso choque com o macabro do enredo, tornado o filme uma iguaria positivamente enganosa.

 

Como acontece com a generalidade do cinema de Woody Allen, não é para todos os gostos. Afinal, é tudo muito engraçado e honesto e relacionável com as nossas contendas emocionais e morais quotidianas, mas é evidente que este universo populado por intelectuais ligeiramente verborreicos que pensam que percebem a vida mas são péssimos a vivê-la não é a praia para todos.

 

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Ao contrário de “Annie Hall”, “Manhattan” ou os mais recentes “Blue Jasmine” e “Midnight in Paris”, “Irrational Man” parece ser uma daquelas obras medianas entre os mais de 50 filmes que preenchem o vasto currículo de um Homem que transpira Cinema.

 

Não é, de todo, irracional desejar que o próximo seja um deleite irrefutável.

 

 

7.0/10

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Point-of-View Shot - Fehér isten (2014)

por Catarina d´Oliveira, em 04.08.15

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"Everything terrible is something that needs our love"

 

Com o sucesso do legado de Lassie, Beethoven, Benji e muitos outros, não é tão raro assim que um animal assuma um papel de relevo numa produção cinematográfica. O que é menos comum é que o nosso fiel amigo de quatro patas seja o centro de uma narrativa de contornos sérios, radicais mesmo, e tão profundamente conectada a algumas das maiores quezílias da raça humana desde sempre, e particularmente na atualidade.

 

Segundo os mitos da indústria, em 1929, o Pastor Alemão Rin Tin Tin recebeu mais votos na corrida ao galardão de Melhor Ator nos Óscares, mas rapidamente a Academia determinou que um humano deveria ganhar. Talvez, desde então, nunca tenhamos testemunhado uma outra ocorrência tão veemente na exposição dos talentos caninos até Hagen (interpretado pelos gémeos Luke e Body) dominar por completo a narrativa e emoção de “Fehér isten” ("Deus Branco", no título português), um conto premonitório sobre as relações entre uma espécie superior e o seu inferior caído em desgraça.

 

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Sabemos desde o plano de abertura – onde uma rapariga pedala ao longo de uma estrada perseguida por centenas de cães – que “Fehér isten” será uma besta diferente, não apropriada ou flexível a todos os gostos.

 

Flutuando entre a perspetiva humana e canina, a violência imprimida por Kornél Mundruczó desenrola-se em função da tarefa maior de exibir não só uma crítica direta (relativa aos maus-tratos animais) como uma metáfora simples mas poderosa – de como os rejeitados e abusados se unirão em busca de justiça maior, que não chega de forma certa ou errada, mas da forma possível.

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Não é certamente a primeira obra a sugerir que a crueldade humana enfrentará, um dia, o doloroso "karma" perante os seus atos, mas com uma abordagem particularmente empática de uma versão caninca de "Birds", sublinha este ponto a marcador vermelho garrido.

 

O talento dos coprotagonistas humanos nem sempre acompanha o compromisso dos colegas de quatro patas, e é discutível a decisão do realizador em não só ter vilanizado a maior parte dos humanos como, no último ato, dar-lhes mais espaço de manobra e reflexão, em detrimento dos animais.

 

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Para Mundruczó, era "go big, or go home", e o resultado foi esmagadoramente belo e filosófico.

 

É entre o místico realismo áspero e a fantasia assombrada que “Fehér isten” se pauta numa das obras mais interessantes e enigmáticas de 2014.

 

 

8.5/10

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Point-of-View Shot - Jurassic World (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 11.06.15

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"You just went and made a new dinosaur? Probably not a good idea..."

 

Há um lugar especial no coração de alguém que, numa insuspeita noite de verão, algures nos anos 90, se esquivava dos pais para ligar a televisão quando “Jurassic Park” era exibido pela primeira vez em canal aberto.

 

Descobriu-se a compaixão quando o Triceratopo adoeceu, a ansiedade quando uma debandada de Galimimos fugia à fome do T-Rex, o “toma lá bem feita!” quando o Dilofossauro impede Dennis de fugir do Parque com os embriões, os arrepios na espinha quando inolvidável o tema de John Williams ecoava pelo parque e a tensão pura e profunda quando aqueles dois Velociraptors encurralaram os miúdos na cozinha.

 

É pouco recomendável referir a primeira pessoa num texto que, apesar de naturalmente subjetivo, se procura fundamentalmente argumentativo e analítico. No entanto, arrisco tomar breves linhas para furar a convenção e explicar que “Jurassic Park” mudou a minha vida, porque com apenas uma mão cheia de anos de vida descobri que o milagre da sétima arte estava no seu alcance aparentemente infinito. Foi ali, com o filme de Spielberg, que o meu elo inabalável com o Cinema foi criado. E no dia em que o Parque se tornou Mundo, voltei àquela noite clandestina.

 

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A ter lugar 22 anos depois do primeiro filme – e basicamente ignorando todos os acontecimentos das sequelas – a nova aventura Jurássica regressa à Isla Nublar onde o parque de dinossauros está finalmente em funcionamento e segurança... Até deixar de estar.

 

Numa nova exposição da ignorante ambição de “brincar aos deuses”, a falta de humildade humana atinge novos máximos quando a gestão do parque resolve começar a criar dinossauros geneticamente modificados, sendo a inequívoca estrela da companhia o impressionante Indominus Rex – que é, na verdade, “A” Indominus Rex. Porque é que havemos de continuar a criar espécies “mundanas” quando podemos juntar as mais perversas combinações de DNA que o tempo tentou esquecer? Evidentemente, a imprevisibilidade de tal criação leva à sua capacidade de escapar e tornar o resto do parque numa bastante completa e apetecível versão de um buffet “coma até cair para o lado”.

 

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Apesar de não conseguir manter a aura emocional e o sentimento de assombro e fascínio do original de Steven Spielberg, Colin Trevorrow revela-se como um competente maestro do caos como gerador de ação.

 

Surgindo como a mais sólida (e melhor) das três sequelas, “Jurassic World” é especialmente bem-sucedido no estabelecimento do ritmo da ação que, quando arranca, explode numa montanha-russa de acontecimentos verdadeiramente entusiasmantes. Também o híbrido sintético no centro do terror da narrativa é simbólico - além do agente do caos, é uma metáfora representativa dos excessos gerados pelas imoderações do consumo e de quem produz entretenimento e a fome do lucro.

 

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O diálogo não é particularmente inspirado e algumas personagens tornam-se estereótipos andantes por falta de melhor caracterização (particularmente os vilões), mas à parte da eterna questão “como é que estes tipos conseguem continuar a ser autorizados e financiados para abrir estes parques?”, “Jurassic World” consegue transcender a ideia básica de bestas que perseguem humanos em fuga e é estruturalmente bem construído, tem uma progressão dramática e de enredo relativamente convincentes e um clímax surpreendentemente satisfatório.

 

Depois de um primeiro ato gerado para fazer os queixos tombar com admiração dócil, Trevorrow transforma rapidamente esta aventura de ficção científica num elaborado exercício criativo de (re)afirmação da lei de Murphy – não só tudo o que pode correr mal vai acontecer como vai tornar-se ainda pior. Às vezes parece mesmo que Trevorrow e companhia passaram a noite anterior à escrita do argumento a encharcar-se de gomas e Coca-Cola enquanto assistiam a “Predator”, “Alien” e “The Thing” escondidos debaixo dos lençóis.

 

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E apesar de o amor e respeito do realizador pela aura de “Jurassic Park” ser bastante óbvio, é no terceiro ato, algo espalhado por todo o lado, que esta sua nostalgia acaba por levar a melhor perdendo-se em referências e anotações demasiado encantadas com a sua própria importância. Não é necessária uma análise profunda para admitir que “Jurassic World” é frequentemente frívolo e autocomplacente, mas a verdade é que, surpreendentemente, na maioria das vezes, acaba por funcionar de alguma forma.

 

Chris Pratt é um herói carismático e bem-humorado, e enviamos diretamente de Portugal o prémio de "Maior Maratonista de Saltos Altos" para Bryce Dallas Howard, mas apesar de uma sólida dupla humana, são, mais uma vez, os fantasmas da maravilha extinta os principais protagonistas.

 

A magia dos animatrónicos de Spielberg está praticamente ausente num parque onde, provavelmente, 99% dos dinossauros são inteiramente gerados por computador. E se é verdade que esta visita aos milhões de anos passados parece, em certa medida, mais plástica e processada, este tipo de animação permite outros voos, estratosféricos, pela possibilidade do imaginário do cinema. E a vocação que é aqui demonstrada pelo estado de arte tecnológico é de cortar a respiração.

 

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Num exemplo em que o todo é superior à soma das partes, “Jurassic World” é uma seta do cupido apontada ao nosso coração com síndrome de Peter Pan. Durante duas horas completas convencemo-nos de que os dinossauros estão à distância de uma viagem de barco e de que o limite da nossa imaginação é apenas o início das possibilidades de um Cinema feiticeiro na fábrica de sonhos.

 

É um blockbuster de verão à moda antiga, de coração terno e adrenalina máxima onde é o homem contra a natureza, contra a natureza (modificada). E nós, porque estamos muito mais abaixo na cadeia alimentar do que gostamos de admitir, bem podemos aplaudir, mas nunca ganhamos.

 

 

7.5/10

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Point-of-View Shot - Capitão Falcão (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 29.04.15

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"Eu como comunistas ao pequeno-almoço!"

 

Começo por afirmar com toda a veracidade: o lápis azul não teve nada a ver com a minha impressão extremamente positiva desta história dos livros que foi virada do avesso para nos fazer rir com heróis que são os maus da fita.

A base da comédia de João Leitão está no mistério verídico de uma série televisiva em produção entre 1973 e 1974, CAPITÃO FALCÃO. Este renascimento do ícone para o séc. XXI conta a história de um super-herói Português (o primeiro!) ao serviço do Estado Novo. Juntamente com o seu sidekick, Puto Perdiz, Falcão combate todas as ameaças à Nação, que incluem os terríveis comunistas, os impiedosos Capitães de Abril e as arrogantes feministas, respondendo a um homem apenas: António de Oliveira Salazar. Mas estranhos acontecimentos e uma ameaça democrática começam a invadir a capital… Conseguirá Capitão Falcão salvar o dia?

 

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Leitão trabalhou no “filho adorado” por mais de seis anos, e apesar de ser um estreante nas lides cinematográficas, dirige as operações com o engenho e calma de um veterano. As inspirações e influências são várias e vão desde os filmes franceses do OSS: 117, às séries de Batman, Allô Allô e Blackadder, e sem esquecer a preponderância clara de Chaplin, Jackie Chan e Bruce Lee no processo criativo.

Gonçalo Waddington foi o ator (sabiamente) escolhido para trazer à vida um poderosíssimo e carismático protagonista fascista de bigode de uma acídica e perversa sátira política sobre o Antigo Regime, que toma partido de um ponto-de-vista único e provocador.

 

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A abordagem é profundamente teatral e declamatória, o que pode jogar em seu desfavor – não sendo uma técnica comum na indústria portuguesa, pode tornar-se cansativa e repetitiva. Não obstante a originalidade do conceito, o bom ritmo e do sucesso generalizado da sua transposição para o grande ecrã, sente-se, em determinados momentos, que o humor também não é suficientemente robusto para aguentar a totalidade da película.

Todavia, CAPITÃO FALCÃO é uma redonda vitória portuguesa. É uma espécie de blockbuster, acessível em género e em tema, que resplandece criatividade - no horizonte paira a interessante hipótese das sequelas, dependentes, evidentemente, da adesão do público.

O cuidado na construção de um "falso mau filme" – e é preciso que atentemos que este próprio esqueleto é intencional e parte essencial do deboche generalizado – é extremo, desde as sofríveis montagens de veículos em movimento, às lutas inspiradas nas artes marciais. Mas as diferenças não se esgotam no ecrã e viajam até à promoção cuidada, que alia aos tradicionais tv spots e trailers da praxe, a uma miríade de concursos de grafismo e uma página de Facebook hilariante, dirigida pelo próprio Capitão.

 

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Mostra-se uma vez mais necessário lembrar que o cinema português atravessa um longo deserto de desamor, de desapego com o público que tem de conquistar para respirar numa ambiência de asfixia. Ao fechar-se sobre si mesmo, afasta o elemento de que mais precisa. Por isso é que precisamos do Capitão Falcão.

Precisamos de heróis metafóricos para fazermos as pazes com a indústria que já amámos e respeitámos, e para conseguirmos voltar a sentir o orgulho coletivo de comprar o bilhete para um filme português. Precisamos de comédias que não são fáceis, de dramas que não cheiram a novela e de fantasias que nos transportem para longe.

E não é que não se faça já bom (ou, em alguns casos, excelente) cinema português – o problema é que o público e o meio se perderam demasiado pelo caminho, e os laços têm de ser reconstituídos.

 

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Este CAPITÃO FALCÃO não é perfeito, mas é uma tremenda lufada de ar fresco, um certeiro tiro no escuro de um género inexplorado, uma explosão de (bom!) entretenimento e uma seta do cupido apontada ao coração português.

E agora pirem-se daqui e vão ver o filme, senão o Capitão vai à vossa casa e limpa-vos o sebo.

 

 

8.0/10

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Point-of-View Shot - Mommy (2014)

por Catarina d´Oliveira, em 31.03.15

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"Toi et moi, on s'aime encore, hein ?"

 

Exuberante e cru – é assim o cinema de Xavier Dolan, o jovem realizador que chegou às bocas do mundo com a sua quinta longa-metragem, premiada em Cannes e tatuada na memória.

 

Mas o enfant terrible canadiano não é novo nestas andanças. Depois de uma carreira prolífera como ator infantil, serpenteou para trás das câmaras com apenas 19 anos, quando lançou o seu primeiro filme, J'AI TUÉ MA MÈRE, um grito de raiva materializado num drama parcialmente autobiográfico sobre a complexidade dos laços de um filho problemático e uma mãe alheada.

 

Essa primeira obra, que espalhou na tela como pinceladas seguras alguns dos primeiros indícios daqueles que seriam os traços mais distintivos da obra de Dolan, está intimamente ligada com o seu mais recente filme. É que se J'AI TUÉ MA MÈRE foi um castigo alegórico para a sua mãe, MOMMY nasceu para vingá-la.

 

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Die é uma mãe solteira, viúva mas com muita garra, dá por si com o fardo de ter a guarda exclusiva de Steve, o seu filho de 15 anos que sofre de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção. Enquanto tenta sustentar ambos e lida com esta situação difícil, Kyla, a nova e peculiar vizinha da frente, oferece-se para a ajudar. Juntos encontram um novo sentido da vida, de equilíbrio e esperança.

 

Furioso, MOMMY é um tornado de emoções à flor da pele, mas um mestre absoluto na sua gestão – nunca se torna cansativo, porque a energia do seu caos organizado é absolutamente revigorante. O ritmo é implacável, brilhando ao nível de uma realidade de emoção, frustração e desejo aumentados. É uma viagem na montanha-russa sem paragens, selvagem, louca, e completamente embebida na pop que marcou o crescimento das gerações de 80 e 90.

 

Atirando-se à arte que nasceu para ser sua com o apetite voraz de uma criança num recreio sem limites, Dolan tem vindo a consolidar uma estética única e uma voz distinta; com MOMMY chega a irrevogável prova de uma maturidade emocional além dos seus 25 anos.

 

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Mas este não é apenas um portento dramático, ou exímio no contexto narrativo pungente. É, igualmente, uma exposição viva de criatividade cinematográfica. Apoiando-se num revolucionário aspect ratio de 1:1 (o equivalente, digamos, ao formato de uma fotografia no Instagram), obriga-nos a respirar as emoções dos personagens num quadrado perfeito, criado especificamente para aniquilar possibilidade de escape. Todos os sentimentos, as revoltas e motins emocionais são maximizados, até um momento de pura liberdade artística, evidentemente transcendente, que torna a razão para esta decisão técnica ainda mais clara.

 

No contexto das interpretações, é profundamente doloroso recordar a falta de reconhecimento que o tridente de Dolan tem obtido. Anne Dorval, musa habitual do realizador, é uma força da natureza como a excêntrica viúva Die, naquela que foi certamente, uma das interpretações femininas mais poderosas de 2014. Também o jovem Antoine Olivier Pilon foi fenomenal como o bombástico e imprevisível Steve, e Suzanne Clément confere uma qualidade enigmática à professora reservada que ajuda a família.

 

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Trágico mas luminoso, MOMMY é um filme de surpreendente violência e dor profunda, pontuado por explosões de absoluta (e genuína) felicidade. É euforia pura, inebriante, cheio daquilo que torna a vida… na vida.

 

Uma consequência justa. Uma reviravolta injusta. Um sorriso sincero. Um uivo de dor. Uma lembrança serena. Uma ferida em carne viva. Uma gargalhada dobrada. Um murro no estômago. Um abraço de esperança. Um choro de morte.

 

E passando os dedos pelas cicatrizes, saímos da sala mais vivos.

 

 

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