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Point-of-View Shot - Tabu (2012)

por Catarina d´Oliveira, em 02.06.14

 

"Quem diz que o tempo apaga as mágoas nunca amou como eu"

 

Pilar vive os seus primeiros anos de reforma a tentar endireitar o mundo e a lidar com as culpas dos outros, tarefa cada vez mais frustrante nos dias que correm. Participa em vigílias pela paz, colabora em grupos católicos de intervenção social, quer acolher em casa jovens polacas que vêm a Lisboa para participarem num encontro ecuménico e inquieta-se sobretudo com a solidão da sua vizinha Aurora, uma octogenária temperamental e excêntrica, que foge para o casino se tiver dinheiro com ela, fala constantemente da filha que não parece querer vê-la, ressaca antidepressivos e desconfia que a sua criada cabo-verdiana, Santa, dirigindo contra ela práticas malévolas de vudu. De Santa quase nada sabemos, é de poucas palavras, executa ordens e acha que cada um deve meter-se na sua própria vida. Aurora fará um misterioso pedido e as outras duas unem-se para o tentar cumprir: a tarefa requer encontrar um homem, Gianluca Ventura, que até àquele momento ninguém sabia que existia.

 

Ventura tem um pacto secreto com Aurora e uma história por contar. Libertando finalmente um segredo que é tanto seu como da sua nação – ensombrada pelos desequilíbrios do colonialismo Português – Ventura faz um relato enterrado há mais de cinquenta anos que começa assim: “Aurora tinha uma fazenda em África no sopé do monte Tabu...”.

 

 

Vencedor do Sophia de Melhor Filme (os “nossos Óscares”, que começaram a ser entregues no ano passado), o drama visceralmente lírico e sofisticado de Miguel Gomes é concomitantemente um trabalho profundamente original e autêntico no enquadramento da indústria nacional e internacional, mas também (e sobretudo) uma íntima e extensa homenagem à história do Cinema – tomando particular inspiração no clássico homónimo de F.W. Murnau, de 1931.

 

Monocromático, com passagens essencialmente silenciosas conduzidas pelas palavras de um narrador, “Tabu” é dividido em dois capítulos – “Paraíso Perdido”, com uma abordagem mais paciente e referente às ações passadas em Lisboa, e “Paraíso”, mais expedito e brincalhão com as convenções cinematográficas, localizado em África – e embarca em inúmeros riscos estéticos e narrativos para emergir como um testamento vivo às habilidades do realizador e da coargumentista Mariana Ricardo. Nenhum outro risco é, todavia, tão avultado como a consciente decisão de confiar na inteligência e paciência da audiência para deslindar a sua própria interpretação deste enigmático pedaço de éden cinematográfico.

 

 

A primeira estrofe é inequivocamente mais laboriosa e difícil de manter o investimento. É perigoso deprimir tanto a audiência logo à entrada, mas a verdade é que é esta experiência que invoca a nossa diligência é absolutamente necessária para a total imersão na segunda parte.

 

De todo o modo, cada uma das partes é inseparável da outra, partilhando canções (incluindo clássicos pop inapagáveis como “Be My Baby” e “Love is Strange”), simbolismos, linhas de diálogo e feridas abertas que se unificam numa espécie de truque de magia inesperado.

 

Explorando o desejo interior humano de encontrar o seu próprio paraíso, Gomes faz uso de temas potentes como o colonialismo, o racismo, a memória, a infidelidade e o poder socialmente destrutivo do amor proibido para ativar as nossas emoções de uma forma que podemos não compreender à partida, mas que sentimos de uma forma devastadoramente bela.

 

 

Mas dicotomicamente, “Tabu” não parece surgir como um filme estritamente artístico, e por isso inacessível à grande maioria do público. Ao contrário – são as suas amarras às emoções mais básicas da natureza humana que o tornam um objeto tão relacionável e significativo, mesmo que contado como uma sensibilidade tão excêntrica.

 

A própria artificialidade no processo de storytelling é usada como uma ferramenta para convir melhor a verdade do epicentro emocional da história. É uma visão provocadora, e poucos filmes são inteligentes o suficiente para incorporar as suas aspirações alegóricas em narrativas diretas.

 

Tabu” é, verdadeiramente, uma experiência transcendente que nos assombra por dias, meses, vidas. Em última instância, é uma das maiores e mais excêntricas histórias de Amor do nosso tempo.

 

Quanto a Aurora e Ventura - como Romeu e Julieta - o coração, o mais insolente músculo de toda a anatomia, guardá-los-á para sempre.

 

 

9.5/10

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