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Point-of-View Shot - Pulp Fiction (1994)

por Catarina d´Oliveira, em 23.05.14

 

"Well, there's this passage I've got memorized that sort of fits this occasion. Ezekiel 25:17. The path of the righteous man is beset on all sides by the iniquities of the selfish and the tyranny of the evil men. Blessed is he who, in the name of charity and goodwill, shepherds the weak through the valley of darkness, for he is truly his brother's keeper, and the finder of lost children. And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy my brothers. And you will know my name is the Lord when I lay my vengeance upon thee!"

 

O filme que mudou a face do cinema americano moderno celebra esta semana o seu 20º aniversário, e para celebrar a data, nada melhor do que revisitar o clássico contemporâneo que continua a enfeitiçar o mundo.

 

Pulp Fiction” é uma espetacular mistura de ação explosiva e humor perverso que retrata três histórias interligadas que seguem as desventuras de dois assassinos baratos, da insinuante mulher do seu patrão e de um desesperado boxeur em fuga.

 

 

Há um preconceito anexado à figura de Quentin Tarantino em geral e de “Pulp Fiction” em particular que diz que ambos se constituem meramente de material cinematográfico reciclado, referências à cultura popular q.b., música dos anos 70 e ultraviolência. Muitos tentaram – em diferentes graus, formas e feitios – repetir esta fórmula “óbvia”, mas o desafio de tentar recordar alguma que tenha resultado com a plenitude, frescura e originalidade da obra do realizador americano tem tudo para revelar-se uma investigação inglória. Isto porque “Pulp Fiction” foi e continua a ser, de facto, uma besta ímpar.

 

É, simultaneamente, monumental e extremamente acessível, com uma energia que se renova a cada passagem, e um cocktail de euforia do início ao fim.

 

O desafio ao género estabelece-se como se de uma criança rabina e irrequieta se tratasse: num minuto estamos a assistir a uma comédia negra, no outro debatemo-nos com a alta tensão de um thriller, voltamos a rir com a comédia para logo mergulharmos numa passagem que algo deve ao noir, e eventualmente voltamos a rir apenas para depois sermos derrubados por algo que nos fará refletir sobre o enredo e a própria vida.

 

 

A narrativa completa foi esquartejada em pequenas vinhetas e reorganizada como um complexo puzzle. Ao contrário do que possa parecer, não é apenas um galvanizante ensaio sobre as inesperadas reviravoltas que comandam a vida e sobre a apatia e o niilismo da cultura moderna, mas também e sobretudo sobre o poder individual que cada um de nós detém de escolher o deu próprio destino e sobre o derradeiro poder da redenção.

 

Mais baseado em filmes antigos no que na vida propriamente dita, “Pulp Fiction” inspira-se na escória que protagoniza a literatura “pulp” dos anos 30 e 40 enquadrada num voluptuoso catálogo de referências cinematográficas – mas Tarantino não é um snobe, porque o mesmo entusiasmo está reservado para a nata artística da Nouvelle Vague Francesa e para os chamados “trash movies”. No que ao realizador diz respeito, marcou o grande momento da sua carreira em que, qual garoto malandro, avançou sobre a lata das bolachas sem permissão dos pais… e aproveitou cada segundo ao máximo das suas liberdades.

 

 

Até hoje, “Pulp Fiction” encerra prazeres, puzzles e mistérios que ainda estão por descobrir. Não escondendo as suas imperfeições, é uma daquelas obras que inspira discussões animadas sobre o quão excitante o meio cinematográfico pode ser.

 

Há quem diga que é a grande obra de arte da geração da cultura pós-moderna. É sempre difícil assinar por baixo de uma declaração dessas… mas assino esta, de bom grado: é o mais suculento Royale with cheese do pedaço, baby. Royale with cheese.

 

9.0/10

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