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Point-of-View Shot - A Most Violent Year (2014)

por Catarina d´Oliveira, em 11.02.15

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"When it feels scary to jump, that is exactly when you jump, otherwise you end up staying in the same place your whole life, and that I can't do"

 

No mais recente filme de J.C. Chandor, exploramos o lado sombrio do sonho americano.

 

Estamos em Nova Iorque, no ano de 1981, aquele que ficou conhecido como um dos mais violentos na história da cidade. Abel é um imigrante cuja incessante busca pelo sonho americano aliada a um carisma e paixão profissional exímios o levaram a tornar-se o dono de uma empresa petrolífera independente em crescimento. A próxima jogada no tabuleiro tem em vista um potencial xeque-mate: a aquisição de uma propriedade em localização estratégica que lhe dará inúmeras vantagens perante os concorrentes. No entanto, a própria negritude que acompanha a fotografia do filme de Chandor faz adivinhar que nem tudo será fácil. Além de ver os seus camiões cada vez mais violentados por assaltantes que vendem o seu produto à concorrência, Abel encontra-se envolvido numa investigação à indústria no geral e à sua empresa em particular por suspeitas de fraude e desvio de dinheiro.

 

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Depois da estreia provocadora que abocanhou o berço da crise económica com MARGIN CALL e do testamento à sobrevivência de ALL IS LOST, Chandor continua o brilhante mas silencioso trilho pelo cinema “downstream”, desta vez mais pessoal e emocional, mas gloriosamente contracorrente. Filmes como A MOST VIOLENT YEAR, lúgubres, sombrios, já não se fazem. Mas também como as suas obras precedentes, é difícil de vender. É original, provocador, mas não exatamente o sonho de um diretor de marketing.

 

Ecoando a influência óbvia da mais fina coleção de Cinema americano baseado em intrigas mafiosas, A MOST VIOLENT YEAR não deixa de ser, no entanto, um filme nuclearmente diferente de, digamos, THE GODFATHER. É que apesar de parecer um filme de gangsters, na verdade, não o é. No entanto, o ponto que Chandor pretende cobrir é que o universo de Abel não tem como fugir à influência dos protagonistas destes outros filmes, os verdadeiros mafiosos. E não obstante o título, a sua violência é implícita, mais um fantasma soprado por uma metáfora de sobrevivência num mundo implacável.

 

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A obstinação de Abel em dirigir um negócio limpo e justo pode ser ocasionalmente exasperante, mas o que o torna um protagonista mais interessante é o facto de ser simultaneamente duro e impiedoso. A dignidade e intensidade que Oscar Isaac lhe trás enquanto empreendedor cada vez mais desesperado é notável, todavia, já se provou uma e outra vez que são as personagens com mais defeitos e falhas de moral que se revelam mais interessantes, e aqui o caso não muda de figura.

 

Alicerçada numa performance excecional de Jessica Chastain, Anna é a metade menos escrupulosa do par, apaixonada pelo marido que a conquistou pela bondade, mas disposta a fazer verdadeiramente o que é necessário, quando é necessário. A construção de Chastain é a de uma mulher inteligente e poderosa, mesmo que enquadrada numa era enterrada nas raízes dos papéis de género mais tradicionais. A ausência deste cuidado e surpreendente retrato na awards season é incompreensível, mesmo à luz do acordo castrador alinhado pela altura de INTERSTELLAR, que impediu a atriz de fazer campanha por qualquer outro filme.

 

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Este conto de moralidade desenrola-se com uma confiança intoxicante, mantendo o espectador empenhado em manter o ritmo num inesperado nail-biter ambientado à indústria petrolífera. É um tesouro escondido numa campanha de promoção enfraquecida, mas um dos grandes thrillers de crime dos nossos tempos.

 

Resta apenas salientar que criação de Chandor não necessita de Óscares ou galardões, porque tem-se a si mesmo para se definir e sobreviver ao passar do tempo e de outras obras. Porque consigo carrega a insubstituível nostalgia de um tempo onde o mundo era um lugar pior, mas os filmes eram arte melhor.

 

 

8.5/10

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Point-of-View Shot - The Theory of Everything (2014)

por Catarina d´Oliveira, em 03.02.15

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"There should be no boundaries to human endeavor. We are all different. However bad life may seem, there is always something you can do, and succeed at. While there's life, there is hope."

 

Num filme sobre um dos maiores génios do nosso tempo, o coração é, curiosamente, o órgão mais exercitado da anatomia.

 

Apresentamos Stephen Hawking, um jovem mas promissor estudante de Cambridge, despreocupado com os formalismos mas infinitamente curioso nos limites da sua inteligência. Numa festa insuspeita conhece Jane, outra jovem estudante (mas de arte e literatura) que lhe chama a atenção de outro órgão avesso, mas infinitamente menos treinado que o cérebro: o coração. Persistente, não desiste até à conquista… mas o seu Amor recentemente incendiado é posto à prova quando Stephen é diagnosticado com uma doença neurodegenerativa julgada fatal e que oferece ao portador a cruel realidade de uma mente sã aprisionada a um corpo enfermo e, eventualmente, absolutamente incapaz. Segue-se uma batalha feroz, mas que nada tem de inglória. Na vida e na Ciência, Stephen Hawking teve tudo.

 

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A teoria propriamente dita de THE THEORY OF EVEYRHTING é inatamente secundária. A ciência é largamente simplificada, descomplicada ao ponto de deslizar suavemente pela lógica da audiência, mas o filme de James Marsh não tenta ser mais do que é – em primeira instância, uma crónica afetuosa dos 30 anos de casamento entre Stephen e Jane. Não deixa de ser uma abordagem curiosa vinda de um documentarista nato – afinal, Marsh orquestrou, entre outros, os fabulosos MAN ON WIRE (2008) e PROJECT NIM (2011).

 

Baseado nas memórias de Jane Hawking, enche a alma através dos olhos; serpenteamos por festas luminosas e pelo luxuoso interior britânico para estabelecer o ambiente de um olhar realístico à observação continuada e realista das diversas formas do amor: a paixão ardente, o conforto do romance, a fraternidade da ternura e, eventualmente em vários casos, a persistência da promessa. Num drama sólido, que embarca em poucos riscos e é inegavelmente "atraente" para a awards season, a melhor notícia é que a perseverança, a esperança e a ternura genuína vencem continuamente o braço de ferro face ao melodrama exagerado.

 

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A mais pura verdade é que obras desta natureza tendem a alicerçar-se numa performance nuclear, e para bem da honra de Hawking e para a prosperidade do próprio filme, Eddie Redmayne responde ao desafio com a classe de um vencedor. A fundação da sua criação não se apoia numa imitação barata ou num espetáculo espalhafatoso de contorcionismo exibicionista. O que aqui assistimos é a uma caracterização profunda, a uma materialização de meses de preparação que se transformam numa criação de pasmar.

 

A seu lado, e combatendo audazmente a tendência de “ficar na sombra do grande homem”, Felicity Jones convém a Jane uma complexidade e autenticidade que criam empatia com a audiência. Jones e Jane não só estão presentes, como reivindicam a sua parte na história.

 

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É supremamente fácil cair no desejo de diminuir THE THEORY OF EVEYRHTING perante o desejo de uma obra intelectualmente mais estimulante, mantendo o ritmo do endiabrado pensamento do seu enigmático protagonista, ou até mais ousada e fraturante.

 

Mas Marsh edificou uma história de amores, amores de vida, que se mutam com o tempo e a circunstância, que se provam perante as dificuldades. E mesmo não fazendo verdadeiramente jus ao título que ostenta, é uma afetuosa exploração sobre a mais importante de todas as teorias: a do Amor.

 

 

7.0/10

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Point-of-View Shot - Birdman (2014)

por Catarina d´Oliveira, em 20.01.15

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"Popularity is the slutty cousin of prestige"

 

Mergulhar de cabeça em BIRDMAN é muito semelhante a desdobrar um infindável origami, que continua a abrir-se, sem fim à vista, em direções e combinações absolutamente inesperadas.

A história é enganadoramente simples: Riggan Thomson, uma antiga estrela de ação celebrizada por interpretar um super-herói há 20 anos, tenta reanimar a sua carreira ao encenar e protagonizar uma peça na Broadway. Contudo, todos e quaisquer obstáculos parecem jogar-se no caminho da noite de estreia.

Os corredores labirínticos do St. James Theater apertam-se cada vez mais em redor de Riggan, que se sente crescentemente assombrado pela voz do seu alter-ego, Birdman. A vida e a arte baralham-se, a câmara perpetua o movimento neurótico, enquanto a banda sonora latejante é pontuada por frenéticos batuques, o tempo destrói-se e o espaço aperta numa dança esquizofrénica que parece espelhar o estado mental do protagonista.

 

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Todos os astros parecem alinhados para uma sarcástica comédia de backstage mas BIRDMAN é muito mais: é um estudo de personagem, um (meta) comentário à arte e entretenimento modernos, um ensaio sobre o ego da celebridade e os seguidores acéfalos, uma sessão de psicanálise, uma autópsia ao poder e ao prestígio, uma exploração sobre a profunda necessidade de criação artística, uma maravilha técnica que será examinada e esmiuçada durante anos, um espetáculo singular montado sob as bases de um dos melhores elencos do ano, e um conto surreal sobre um homem que procura desesperadamente a sua alma.

É imensamente divertido de um modo negro e mordaz, mas tal como os fumos e luzes do palco assombram toda a parada de Alejandro González Iñárritu, há aqui algo palpável, reconhecível mas quase inexplicável, maior do que a vida. Filmado como se de um impressionante, longo e corajoso plano-sequência se tratasse, BIRDMAN é uma autêntica explosão de ideias e visões que abraça a linguagem dos sonhos para expandir o conceito de storytelling.

 

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Numa era onde um noticiário televisivo tem tanto artifício como os efeitos visuais de ponta de filmes de ficção científica dos anos 70, hoje, é nas instâncias onde a construção se torna invisível que nos perguntamos "que diabo… como fizeram aquilo??". Depois de o ter conquistado na agonizante sequência inicial de 12 minutos de GRAVITY, o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki volta a fazê-lo, agora por toda a duração de BIRDMAN, arrastando o nosso olhar para onde quer que o foquemos, como um talentoso mágico faz com os seus truques de cartas. Contudo, esta artimanha não existe apenas para pasmar – as próprias quezílias do enredo debatem-se sobre estes temas: o artifício, aquilo que julgamos ver e aquilo que vemos na verdade, o público e o privado, o zeitgeist do entretenimento que não distingue o fim de ficção e o início da vida real.

As personagens que encontramos no caminho, desde o melhor amigo/produtor/advogado ao egocêntrico coprotagonista, são dispositivos que se organizam em pontiagudas observações satíricas – as caracterizações são exageradas para criar símbolos, e não pessoas passíveis de encontrarmos na rua.

 

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Além de versar sobre um renascimento, BIRDMAN também proporciona um ao seu protagonista. Naquele que será o seu melhor desempenho na última década, Michael Keaton humaniza o desejo mordaz pela importância de Riggan, alternando entre o estado cómico e profundamente dramático ao longo de vários momentos na fita.

Também em destaque num veículo que pareceu feito para oferecer aos seus passageiros uma oportunidade de refrescar a carreira, Edward Norton e Emma Stone oferecem uma honestidade crua aos seus retratos de um ator egocêntrico com compromisso com a autenticidade máxima e de uma filha distante e perturbada, respetivamente.

Há uma loucura irresistível associada ao filme de Iñárritu, uma obra virtuosa, uma maravilha moderna que contradiz a aparente tendência moderna de colocar filmes em caixas de comédias, tragédias ou fantasias, que nos arrasta, atrelados a uma arte destemida que irradia uma emoção, energia, elegância e ego que são intoxicantes.

 

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É como se o protagonista de INSIDE LLEWYN DAVIS tivesse sido transportado para o séc. XXI, onde o Twitter e o Facebook ditam as manchetes do dia, e tivesse escolhido a carreira de ator, logo depois de se embriagar num cocktail fatal de BLACK SWAN e SUNSET BOULEVARD.

Os fóruns de discussão, as mesas de café e os sofás de amigos de longa data serão alimentados sobre o deslindar cego dos significados de BIRDMAN, alguns absolutamente indecifráveis, como a dinâmica dos poderes telecinéticos de Riggan ou o misterioso final.

Mas não é parte do objetivo, esta natureza resvaladiça do artifício? É como tentar à força fazer um raio-X à mala de PULP FICTION (1994), ou traduzir o sussurro de Bill Murray a Scarlett Johansson em LOST IN TRANSLATION, ou despir de enigmas toda a odisseia no espaço de Stanley Kubrick.

Afinal, não é por acaso que BIRDMAN carrega um pequeno subtítulo: a inesperada virtude da ignorância.

 

8.5/10

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Point-of-View Shot - Maps to the Stars (2014)

por Catarina d´Oliveira, em 04.01.15

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"On the stairs of Death I write your name, Liberty"

 

O suor escorre em bica enquanto se convulsa na cama, às voltas, aos gritos desesperados e presos a uma realidade fabricada, cada vez mais fictícia e desumana. No novo filme de David Cronenberg, Hollywood vive e respira o seu pior pesadelo.

A família Weiss é um arquétipo do show biz andante: o pai, Strafford, é um analista e life-coach que fez uma fortuna com os seus manuais de autoajuda; a mãe, Cristina, é a manager da carreira do filho de ambos, Benjie, uma criança-estrela de 13 anos acabada de sair de um programa de reabilitação pelo consumo de drogas. A chegar perigosamente perto do “núcleo familiar” está ainda a filha afastada Agatha, agora maior de idade, que foi recentemente liberta do hospício onde foi tratada e internada na infância. A juntar ao mix explosivo, introduz-se Havana, uma atriz cliente de Strafford que sonha protagonizar o remake do filme que tornou a sua mãe famosa nos anos 60.

 

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Se ALL ABOUT EVE, SUNSET BOULEVARD e MULHOLLAND DRIVE se envolvessem numa noite de excessos, é muito provável que o fruto bastardo fosse algo muito semelhante a MAPAS PARA AS ESTRELAS.

Impiedoso e implacável, é um murro no estômago de uma Hollywood entorpecida pela ilusão de paraíso glamouroso e trabalhador que furiosamente tenta exteriorizar. O acídico comentário de Cronenberg sobre o narcisismo oco da cultura da celebridade, embrulhado numa sensação de sonho febril povoado por aberrações e perversão é constantemente polvilhado por um humor negro sórdido, no limite do depravado, que abocanha violentamente a mão que o tem vindo a alimentar.

Ao tema em questão (também abordado, de outro ponto de vista, pelo mais recente filme de Sofia Coppola – BLING RING), pouco se acrescenta de novo, mas o filme de Cronenberg acaba por se diferenciar por ultrapassar o limite da sátira para cavalgar ferozmente para o campo do cruel e selvagem.

 

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É verdade que a perturbação sempre fascinou o realizador canadiano, desde os primórdios da sua sórdida carreira, em meados dos anos 70. E se é igualmente rigoroso afirmar que este agente do caos pode ter modificado drasticamente a sua abordagem à sétima arte na entrada do séc. XXI, por outro lado, o deslumbramento pela facilidade de derrubamento dos frágeis sistemas sociais continua a ser a força motriz por detrás do seu cânone cinematográfico.

As motivações ou pontos de ligação para tal desmoronamento têm sido várias, desde a tecnologia (Videodrome, 1983) ao crime (Promessas Perigosas, 2007), passando pelo romance (A Mosca, 1986), a psicologia (Um Método Perigoso, 2010) ou até, veja-se os automóveis (Crash, 1996). Em MAPAS PARA AS ESTRELAS, o agente acaba por ser, por ventura, o mais assustador de todos: os nossos piores impulsos.

 

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As performances são, de um modo geral, competentes na retenção da insegurança e ansiedade extremas das personagens. Julianne Moore é especialmente bem-sucedida no complexo retrato de uma mulher com tiques de diva e com mais do que ligeiros traços de neurose e crueldade.

John Cusack agarra o melhor papel que lhe foi disponibilizado na última década para emprestar toda a monstruosidade a Strafford, enquanto Mia Wasikowska é maravilhosamente distante como Agatha, o verdadeiro anjo da destruição.

 

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Apesar de pouco subtil e nem sempre especialmente gracioso, o argumento de Bruce Wagner é especialmente apto a manter um bom ritmo ao longo de duas horas de assombrações, revelações, twists e drama. É, à semelhança de COSMOPOLIS (ainda que por diferentes razões), uma narrativa relativamente impenetrável e fria, mais crítica e cerebral do que emocional, mas é impossível negar o seu charme de b-movie no coração enegrecido.

As conclusões não são propriamente satisfatórias, mas para um filme sobre a superficialidade existe sempre o risco de ser… superficial. Resta agarrar o mapa de Cronenberg, degustar o delicioso fruto proibido e aceitar como escabroso destino o caos da moralidade.

 

 

8.0/10

 

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Point-of-View Shot - Boyhood (2014)

por Catarina d´Oliveira, em 04.12.14

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"The moment seizes us"

 

Se a vida é uma série de momentos, de recomeços, de escolhas e de compromissos, então BOYHOOD é um magnificente e humilde tributo a tal vida.

Escrito e realizado por Richard Linklater, o ambicioso projeto levou o ávido realizador a filmar uma história ao longo de 12 anos (traduzidos em 45 dias de filmagem), e que nos permitiu assistir ao crescimento figurativo e literal do seu protagonista Ellar Coltrane à frente dos nossos olhos – inspirando-se, quem sabe, no génio de François Truffaut quando decidiu acompanhar a vida de Antoine Doinel ao longo de cinco filmes.

 

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No caso de Linklater, começou a filmar o jovem ator com apenas 6 anos e terminou quando este tinha acabado de completar os 18. Todos os anos, gravava cerca de 15 minutos de filme, montando e compilando pelo caminho. Tudo se junta, numa miscelânea de momentos com alma de álbum fotográfico de uma forma que é difícil de descrever. O efeito é absolutamente esmagador na sua simplicidade.

Entre 2002 e 2014 seguimos a vida do jovem Mason e a sua família, que inclui a impertinente irmã mais velha e o par de pais divorciados, à medida que crescem nos enormes mas (cinematograficamente) tão raros desafios quotidianos e nas diferentes casas que tornam suas, ano após ano.

 

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Com lealdade aos factos, BOYHOOD é um drama ficcionado e narrativo, mas desenrola-se com a verdade pungente de um documentário. Uma obra-de-arte na acumulação de detalhes, e um fascinante exercício no ato de mostrar em vez de contar. O homem que se especializou no formato das “histórias passadas num único dia” alonga os limites do seu engenho para criar algo único e sem precedentes, tanto para a audiência como para si mesmo.

É a soma de uma carreira singular, a culminação de tudo o que tentou alcançar, fundindo a sensibilidade independente e livre que emprestou às suas primordiais odisseias diárias dedicadas ao caos organizado da juventude (SLACKER e DAZED AND CONFUSED) à precisão da reflexão e da exposição verbal tão elegantemente exercitada na trilogia BEFORE SUNRISE/SUNSET/MIDNIGHT, numa poderosa evocação simultânea do que significa pertencer a uma família e crescer, edificando a cada passo uma pequena parte daquilo que virá a ser a nossa identidade. Todavia, não é apenas um estudo sobre a infância e o desenvolvimento humano, mas também dos rigores e vicissitudes da vida adulta.

 

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Mas BOYHOOD não é uma experiência valerosa apenas pela sua natureza estrutural e de produção inovadora – o que aqui temos é também um baú de riqueza cultural inestimável para a geração que cresceu durante o séc. XXI, marcando-se a passagem do tempo com as respetivas deixas temáticas e temporais para nos guiarem subconscientemente: quezílias políticas nas presidências de Bush e Obama, tecnologias primitivas que se transformam em experiências de alta-definição, modas culturais e canções em voga, tudo tão marcado e essencial como o amadurecimento facial e desenvolvimento de cortes de cabelo do elenco. Estas referências não funcionam como um dispositivo de nostalgia barata, mas compõem um ambiente – e não somos nós o produto do nosso ambiente?

 

É dolorosamente fácil descartar BOYHOOD, como um filme simplista, sem um propósito particular ou uma conclusão épica, como que em modo fast-food, pronta a deslindar o nosso lugar no mundo, tanto como seres individuais, como pertencentes a uma realidade social.

 

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Mas a crua verdade é que a vida – a nossa vida - não se resume a epifanias no topo de uma montanha com a banda sonora perfeita, ou a uma frase floreada criada para tatuar no corpo. A vida é uma série de desafios quotidianos, ao longo dos quais crescemos e aprendemos, apenas para descobrir que há por aí muito mais do que poderíamos imaginar. Momentos impactantes ou não, que ora nos confundem, ora nos asseguram que este é o nosso lugar.

 

A vida não é os enredos de Hollywood, ou as letras delirantes de uma banda indie, ou as linhas embriagadas de sonho de um qualquer bestseller. A vida é o primeiro dia de escola. O corte de cabelo que nos envergonha. A discussão matinal com a mãe. As regras chatas do pai. A irritação dos irmãos. As manhas para faltar à escola. A canção do Verão. A festa secreta com os amigos. A cerveja clandestina. As experiências proibidas. As conversas de circunstância. As batatas fritas no bowling. Os concertos com os amigos. As férias com a família. O primeiro amor. A aventura da universidade. O primeiro emprego. O entusiasmo. O aborrecimento. A dúvida. A certeza. A nova dúvida. O começo. O recomeço.

 

E a vida – a nossa vida – está escarrapachada em BOYHOOD.

 

9.5/10

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Point-of-View Shot - Interstellar (2014)

por Catarina d´Oliveira, em 13.11.14

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"Do not go gentle into that good night;

Old age should burn and rave at close of day.

Rage, rage against the dying of the light"

 

 

A cada novo filme, a cada nova incursão, a cada novo puzzle, a questão que se coloca é: será que Christopher Nolan se superou?

 

A resposta, em todos os seus componentes, é subjetiva, mas há pelo menos espaço para uma verdade universal – "Interstellar", um épico de ficção-científica que presta igual reverência às duas metades de denominação do género, é o seu filme mais ambicioso e corajoso, tanto como as ideias e aventura que toma como o destino da terra.


O enredo, lido por quem ainda não assistiu, deve ser simplificado e conjurado sob a forma de uma espécie de feitiço místico que nada pode revelar além da marca da primeira hora de filme, momento em que deixamos para trás a Via Láctea e partimos à descoberta de uma nova galáxia para chamar de casa. A razão para tal exploração radical é que o nosso tempo no planeta Terra se aproxima assustadoramente do fim.

 

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Denso, intricado e com uma arquitetura confiante na sua estrutura complexa, "Interstellar" mina os jogos cerebrais de ideias que tocam algumas das questões mais primárias sobre a natureza humana, o seu futuro e a relação de todas as coisas com o maior herói e vilão de sempre: o tempo.


Não ousaremos discutir a fundo todo o imbróglio científico baseado nas teorias do físico Kip Thorne relativas a buracos negros, wormholes, deformações no tempo ou campos gravitacionais, mas é refrescante assistir à assunção de que a batalha entre a racionalidade e a emoção é uma realidade mesmo na nata da comunidade científica.


Inspirando-se não só na temática espacial, mas sobretudo da perceção do público de determinadas incursões cinematográficas específicas, foi o próprio Nolan quem destacou algumas das maiores influências do seu "Interstellar". Não que precisasse – "2001: A Space Odyssey", "Star Wars", "The Right Stuff" ou "Close Encounters of the Third Kind" encontram referências e reverências a cada esquina, mas Nolan nunca deixa de ser o capitão do seu próprio navio, ou neste caso, nave.

 

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Mas ainda à semelhança de Kubrick – a quem manifestamente deve mais das suas influências estéticas e temáticas - Nolan revelou-se sempre um cineasta profundamente cerebral, frio, dando primazia aos desafios do intelecto e deixando a emoção a uma distância de segurança. Em "Interstellar" encontra, no entanto, o seu exercício mais humano. Apesar de alguns desequilíbrios e tiros ao lado, esta é verdadeiramente a sua primeira tentativa de equiparar o caleidoscópio intelectual ao bombar do coração pulsante.


Um dos principais responsáveis por essa mudança de abordagem é, evidentemente, Matthew McConaughey, que parece tornar-se cada vez melhor ao longo da sua já célebre "McConaissance". A fé inabalável aliada a um carisma magnético tornam Cooper numa metade mágica do coração do filme que oferece a McConaughey a possibilidade de uma interpretação mais subtil e talvez também por isso mais poderosa do que poderíamos esperar. A outra metade pertence a Jessica Chastain – muito provavelmente, a melhor atriz que esta geração conhece – e à sua Murph que é, simultaneamente a personagem mais interessante e intrigante da trama, a única com um arco de desenvolvimento complexo ao longo de toda a narrativa.

 

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O atrito das suas incongruências emocionais e do risco de um terceiro ato rebuscado afastam-no do estatuto de obra de arte, mas, a seu tempo, tornar-se-á certamente um clássico da ficção-científica. Mas a missão maior é mais do que cinematográfica, é profundamente humana e esperançosa.


"Interstellar" é, evidentemente, um blockbuster de proporções colossais – em termos épicos, de alcance, de orçamento – mas não é isso que o torna singular. Numa era onde representações de super-heróis fictícios e invasões extraterrestres imaginadas custam mais a gerar do que o PIB de algumas pequenas nações, o filme de Chrispother Nolan faz diferente. O orçamento é igualmente estratosférico, mas as ideias, essas parecem dignas de um universo de outro dos seus filmes, onde os sonhos se assumem como uma realidade alternativa, palpável, capaz de influenciar o nosso dia-a-dia.

 

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Como Cooper admite, parece que deixamos de olhar para cima e imaginar, e começamos a olhar para baixo. A beleza da fascinação perdeu-se entre o incómodo da preocupação. Isto também no Cinema. E é neste panorama de repetidos cenários apocalípticos, devastadores e descrentes que "Interstellar" se revela como uma grandiosa carta de amor à humanidade. Uma carta imperfeita, é verdade, mas não mais defeituosa do que Nós.


É numa perspetiva de confiança, de crença na possibilidade que Nolan explora aquilo de que o Homem pode ser capaz na busca de algo maior, melhor. Mesmo que esse futuro incerto dependa de seres tão conflituosos, tão cheios de falhas como nós.


Aqui há esperança. No futuro e no Cinema.

 

8.0/10

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Point-of-View Shot - Fury (2014)

por Catarina d´Oliveira, em 28.10.14

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"It will end, soon. But before it does, a lot more people have to die"

 

A história volta a ser violenta no regresso de Brad Pitt ao terreno lamacento e mortífero da Segunda Guerra Mundial.

 

O filme realizado David Ayer é uma janela aberta para uma das mais interessantes partes do inolvidável conflito: o seu final. Os Nazis sabem-no perto, os Aliados sentem-no, mas Hitler ainda não o admitiu e de alguma forma os peões continuam a mover-se num terreno alemão profundamente devastado por mais de cinco anos de luta. A carnificina e o caos que por aqui passaram são inimagináveis, mas cruamente reais, como descobre da forma mais difícil o soldado novato Norman Ellison que é destacado para um dos poucos tanques norte-americanos que restam em combate.

 

No momento em que o Sargento Don “Wardaddy” Coliider lhe põe os olhos em cima, sabe que este será mais uma morte certa para as forças americanas sem a devida instrução. Mas tal como prometeu ao resto da sua equipa – o cru mecânico Grady “Coon-Ass” Travis, o espirituoso condutor Trini “Gordo” Garcia e o artilheiro Boyd “Bible” Swan – fará tudo para os levar até ao fim do conflito vivos. Todavia, e à medida que se entranham mais e mais no arrasado território inimigo povoado por alemães cada vez mais desesperados e dispostos a tudo, Wardaddy terá a sua tarefa muito dificultada.

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Profundamente ambicioso, “Fury” é um exercício fascinante e provocador, ainda que defeituoso em importantes frentes. Penoso, brutal e entusiasmante, é a maior aproximação que encontrará à experiência de passar uns “aprazíveis” dias num claustrofóbico e mal equipado tanque americano no final Guerra – só resta agradecer aos céus que ainda seja impossível uma experiência cinematográfica com cheiro… mas conseguimos imaginar!

 

Além de recordar a fraternidade entre os irmãos de armas à semelhança das películas de guerra dos anos 60 e 70 (como “The Dirty Dozen”), o filme de Ayer também reflete a sombra negra mais reconhecível nos clássicos do pós-Vietname como “Platoon” e “Full Metal Jacket” – mais concretamente, os efeitos inapagáveis da guerra na psique e alma humana.

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Mas o que distancia “Fury” dos demais familiares cinematográficos do género é a sua entrega honesta à fealdade de uma guerra feia. Ayer mergulha – e por extensão, mergulha-nos – na imundice de poças de sangue, nos corpos apodrecidos empurrados pelas escavadoras, nos cadáveres dissolvidos na lama. A beleza surge em pormenores fugidios, como um cavalo branco simbólico ou uma garota loira de olhos tristes, mas a qualquer minuto, Ayer prepara-se para nos castigar por baixarmos a guarda.

 

As batalhas são algo como nunca vimos antes, tática e logisticamente brilhantes, com a devastação bem patente à custa de explosões de cabeças e membros decepados. Apesar de ter sido orquestrada de forma entusiasmante, a conclusão é uma desilusão do ponto de vista dramático – um final “à Hollywood”, que não condiz propriamente bem com a precisão elétrica e moral ambígua da história até então.

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Brad Pitt, Shia LaBeouf e Logan Lerman ficarão certamente na memória pelas carismáticas e afetantes interpretações, mas infelizmente virtualmente todos os personagens são estereótipos: o chefe duro mas de bom coração, o latino desenvolto, o bad boy abrutalhado, o miúdo. A superficialidade da sua abordagem nunca é ultrapassada, com a exceção do jovem Norman, cujos olhos são a nossa porta de entrada para o Inferno instalado. Nestes homens não vemos ou ouvimos a referência à saudade de uma vida passada, apenas o hoje e o som metálico do interior sufocante de uma máquina de guerra que aprenderam a chamar de casa.

 

Com cirúrgica atenção ao detalhe e autenticidade aplicadas às sequências de batalha ao estilo old-school, oferece uma brutalidade e crueza refrescantes, sem cair no habitual jingoísmo do género, e alicerçando-se em verdades absolutas e sentimentos diretos e simples. É verdade que não existe uma história verídica à qual equiparar e ficcionalização de Ayer, mas esta parece leal, honesta, franca.

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É disso que trata “Fury”. Não versa sobre uma geração orgulhosa dos seus feitos, mas da pura definição de pesadelo que representa. E da lama, da sujidade, do sangue, da escuridão. Do som das canções germânicas e dos impropérios americanos. Do barulho dos tanques, das granadas e das metralhadoras. E da névoa da guerra: a neblina das bombas de fumo, mas sobretudo o indistinto nevoeiro entre o poder e a vulnerabilidade, a humanidade e a tirania, a necessidade e a crueldade, e entre o homem e o animal.

 

 

7.5/10

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Point-of-View Shot - Frank (2014)

por Catarina d´Oliveira, em 28.10.14

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"Stale beer. Fat fucked, smoked out. Cowpoked. Sequined mountain ladies. I love your wall. Put your arms around me. Fiddly digits, itchy britches. I love you all."

 

Pode não saber muito sobre “Frank”, mas provavelmente já ouviu dizer que é protagonizado por Michael Fassbender, envergando uma enorme cabeça postiça… portanto mais vale começarmos por aí.

 

Apesar de ser o ator irlandês o grande responsável pelo arrastamento de público que o filme aproveitará, a comédia dramática de Lenny Abrahamson não é tanto sobre esta sua fantástica performance (num laivo de inspiração de casting ao nível do de Scarlett Johansson em “Her"), mas sobre os ideais criativos que o seu personagem representa.

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Ainda que tenha sido coescrito por Jon Ronson (ex-membro dos Oh Blimey Big Band) e de ser inspirado na criação de Chris Sievey (uma personagem com uma enorme cabeça de papel chamada Frank Sidebottom), “Frank” é uma ficção por conta própria que nos leva numa viagem à boleia dos Soronprfbs, uma banda excêntrica encabeçada pelo enigmático personagem titular, à qual se junta Jon, um entusiástico mas inocente teclista cujo desejo de fama e reconhecimento excede largamente as suas capacidades artísticas.

 

Além de capturar na perfeição os momentos de tédio, ansiedade e explosão criativa inerentes à participação numa banda, o filme de Abrahamson é absolutamente desconcertante no tom, assumindo uma abordagem surpreendentemente negra e taciturna no storytelling. Começando como uma extravagante e não raras vezes divertida excursão pelo processo criativo, o filme evolui para uma exploração das torturadas psiques dos seus protagonistas. O facto de mergulhar as suas resoluções convencionais e estrutura familiar na estranheza e peculiaridade dos seus personagens podia ser um motivo crítico, mas a verdade é que “Frank” está no seu melhor quando utiliza as potencialidades deste sistema para parodias as dificuldades da criação musical.

 

Pelo caminho, percorremos ainda críticas e comentários ao pano de fundo da indústria musical, proliferação e crescente importância da presença nos media sociais e a dinâmica de grupo.

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Adicionalmente, e não obstante o último ato ameaçar prejudicar a mística envolvente (assumindo, inclusive uma posição algo cliché que chegou a parodiar nos primeiros dois atos) e o facto de um nevoeiro permanente pairar sobre as suas intenções – é difícil saber se é mais uma sátira crítica à indústria musical ou a celebração de um génio – “Frank” é uma deliciosa dissonância, provocadora e sensível que explora a verdadeira importância do sucesso comercial em oposição à conceção de algo verdadeiramente único.

 

Umas vezes compensa, outras não - é esta a verdadeira beleza e dor tortuosa da criação artística.

 

8.0/10

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Point-of-View Shot - Magic in the Moonlight (2014)

por Catarina d´Oliveira, em 07.09.14

 

"All my optimism was an illusion"

 

“Num cenário idílico internacional, um homem mais velho (e neurótico) apaixona-se por uma encantadora mulher mais jovem” – quase podíamos adivinhar que estávamos num filme de Woody Allen. E estamos mesmo.

 

Estamos no final dos anos 20, e o homem é Stanley Crawford, um famoso e celebrado mágico mais conhecido pela sua persona de palco, o chinês Wei Ling Soo. Resmungão, arrogante e com uma grande opinião de si mesmo, o mágico inglês tem uma enorme aversão aos falsos espíritas que afirmam ser capazes de fazer verdadeiras magias. Persuadido por um velho amigo, Stanley dirige-se à Côte d'Azur com o objetivo de rebaixar uma jovem e sedutora vidente, a americana Sophie Baker.

 

 

Desde o seu primeiro encontro com Sophie que Stanley a considera como uma nulidade que poderá desmascarar num instante como estando a aproveitar-se da ingenuidade da família. No entanto, para sua grande surpresa e desconforto, Sophie é capaz de numerosas proezas a ler a mente e apresenta outros poderes sobrenaturais que desafiam todas as explicações racionais, o que o deixa completamente estupefacto.

 

É um atestado à atenção ao detalhe e lealdade ao período pela parte de Woody Allen que “Magic in the Moonlight” pudesse perfeitamente ser um filme perdido dos anos 30, e à primeira vista, parece mesmo que entrámos numa cápsula do tempo.

 

Debaixo da capa de comédia romântica ambientada à Riviera francesa jaz uma sucinta mas incisiva examinação sobre a fé e a razão, a ilusão e a realidade, o otimismo e o pessimismo e dinâmica relacional que advém da convivência de todas estas constantes dicotómicas.

 

Como habitual, o argumento é um guia de bem-escrever diálogos inteligentes e graciosos que, não se sentido particularmente naturais ou passíveis de habitar lábios na vida real, se adequam à natureza dos seus personagens e ao seu (neurótico) habitat circundante.

 

 

Colin Firth tem a tarefa dar consistência física à neurose e sarcasmo usuais aos protagonistas de Allen conseguindo-o em medidas inconsistentes mas crescentes – depois de um início conturbado e excessivo, a performance estabiliza e equilibra-se ao longo do tempo. Emma Stone confere o charme habitual que parece ter sido suficiente para a tornar uma repetente (o realizador já prepara o seu próximo filme com ela), mas a verdadeira estrela do pedaço é Eileen Atkins, a cítrica tia de Stanley cujo tour de force se guarda para uma cena em particular que envolve a aplicação de psicologia invertida.

 

Todavia, “Magic in the Moonlight não deixa de parecer, em todos os âmbitos e aspetos, uma entrada menor no cânone da Woody Allen. O enredo arejado tenta fazer os desvios para terrenos familiares de forma imaginativa, mas há pouca substância que suporte a afirmação de que esta é uma comédia (ou uma farsa) particularmente sólida.

 

 

As consequências de uma carreira tão prolífera como a do realizador americano (que lança, grosso modo, um filme por ano) é a irregularidade, especialmente patente nas últimas décadas. Por cada “Midnight in Paris” ou “Blue Jasmine” temos um ou dois “Scoop” ou “Magic in the Moonlight” – charmosos e nunca intragáveis, mas evidentemente menores. No caso deste último, não é particularmente fresco ou esforçado, parecendo até, por vezes, redundante e preguiçoso.

 

É como que um requintado amuse-bouche, que tem todo o glamour do auspício duma sumptuosa refeição, mas que não tem o complemento de um prato principal.

 

Não é óbvio ou particularmente pomposo, mas como filme de Woody Allen que é, tem o seu inegável charme. E, para todos os efeitos, e mesmo nas instâncias menos brilhantes ou memoráveis, um filme de Woody Allen nunca é uma perda de tempo (ou respeito pelo intelecto).

 

 

6.5/10

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Point-of-View Shot - Only Lovers Left Alive (2013)

por Catarina d´Oliveira, em 03.09.14

 

"How can you have lived for so long... and still not get it?"

 

O mundo é um lugar estranho na melancólica sinfonia vampírica de Jim Jarmusch.

 

Tilda Swinton e Tom Hiddleston, ambos magnéticos para lá do campo da possibilidade, são Eve e Adam, dois vampiros sofisticados mas enfastiados pela rotina ininterrupta de uma existência eterna. Apesar de casados e ainda que continuem enamorados como no dia em que se conheceram, vivem separados – ela, uma intelectual vibrante, abraçou a cultura remota de Marrocos, enquanto ele, um músico recluso, escolheu como casa uma Detroit em ruínas. Numa vida sem fim, viram tudo, conheceram toda a gente.

 

 

Um dia, alertada pelo crescente desânimo de Adam, Eve viaja até à sua mansão gótica com a missão de o salvar e convencer que as paixões da vida podem equilibrar-se com as suas maiores provações.

 

Num século que não tem sido particularmente meigo para a comunidade vampírica, “Only Lovers Left Alive” é uma entrada particularmente sóbria e respeitadora das convenções do género e da mitologia – desde a impossibilidade do contacto com a luz solar, passando pelas graças com o alho e o real cenário da cessação da existência via bala de madeira. Mas estes são seres peculiares noutra dimensão. Importam-se. Com a idade das coisas, com o conhecimento do mundo, com denominações latinas da flora e da fauna e com amores que duram não uma, mas várias vidas.

 

 

Todavia, esta é apenas uma curiosa expressão da sua face polimorfa: é ainda um ávido (e divertido) comentador político e social obcecado com a decadência artística (e a sua deleitosa história alternativa) e a decomposição da alma humana.

 

O estilo e o tom são duas das suas grandes mais-valias, particularmente porque são usados para acentuar a substância, e não servir como um parco substituto. O segredo está nas composições musicais originais, na onda interminável de significantes (onde se contam Shakespeare, Júlio Verne, James Joyce e muitos outros), no caprichoso ambiente noturno das ruas varridas de Detroit.

 

 

Jarmusch nunca foi o realizador mais acessível do mundo, e seguindo as suas tradições, este é mais um título que coroa a interação acima da narrativa. Mas não obstante a natureza relativamente anémica da história, de alguma forma – talvez pela bengala do género – esta delicada odisseia sobre o reencontro connosco mesmos, o amor de longo-prazo e o conceito de cultura enquanto necessidade humana é um dos seus filmes de digestão mais facilitada.

 

Only Lovers Left Alive” é uma elegia esperançosa e, provavelmente, o filme mais terno e humano da carreira do lacónico realizador. E o facto de versar sobre assassinos de sangue frio não é nenhuma coincidência acidental.

 

 

8.0/10

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