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Point-of-View Shot - "Mud" (2012)

por Catarina d´Oliveira, em 24.10.13

 

 


"There are things you can't get away with in this world, and there are things you can"

 

Tudo começa com um barco numa árvore – envelhecido, mas intacto, colocado ali por alguma força inexplicável e inexorável. Este fenómeno fantástico surpreende Ellis e Neckbone, dois amigos que se aventuram diariamente (e clandestinamente) num barco à procura de uma aventura real. Todavia, e sendo fieis à cultura cinematográfica de Jeff Nichols, os rapazes não questionam, propriamente, só anseiam.

 

Não são os únicos, contudo, como vêm mais tarde a descobrir. Mud é o fugitivo que habita o barco abandonado e que com eles estabelece uma troca honesta. E como a literatura clássica nos ensinou, este estranho e a sua história mudará a vida dos dois rapazes para sempre.

 

 

Em 2007, Jeff Nichols estreou-se com “Shotgun Stories”, a história de um feudo cego pela raiva, seguindo-se quatro anos depois com a fabulosa exploração de um apocalipse vindouro em “Take Shelter”. Mantendo-se fiel ao cheiro e existência do território sulista americano, “Mud” partilha muitos dos temas abordados das obras precedentes, surgindo como um drama de suspense discreto e meditativo sobre o amor e a perda, o certo e o errado, a honra e a deceção, e que se desenvolve sobre o desejo de descobrir aquilo que as pessoas são por debaixo daquilo que dizem.

 

É, provavelmente, mais longo e ruminativo do que necessitava ser, terminando num clímax que, não o sendo exatamente, acaba por atipicamente cair mais nas convenções do thriller de Hollywood do que poderíamos esperar, mesmo que apenas por cinco minutos. Mas, em “Mud”, um fenómeno pouco frequente tem lugar mesmo à frente dos nossos olhos – é um filme de imagens memoráveis, povoadas por pessoas que, em vez de serem impostas, parecem pertencer naturalmente ao seu ambiente.

 

 

Em diversas dimensões – incluindo a componente fantasiosa da abordagem – esta maravilhosa fábula gótica sulista guarda semelhanças com “Beasts of the Southern Wild”, o indie que no ano passado levou Hushpuppy da Banheira à volta do mundo. Ambos funcionam como uma elegia e um canto amargurado sobre um modo de vida em vias de extinção, vista aos olhos da inocência da infância.

 

Pela primeira vez na filmografia de Jeff Nichols, Michael Shannon abdica do papel de protagonista (apesar de contribuir com uma agradável participação secundária) para abrir caminho a Matthew McConaughey, que continua o seu improvável mas não menos fascinante arco de carreira. De uma estrela faz-se, aos poucos, um grande ator, e Mud nasce da combinação dura de uma natureza de bandido e de um sábio tolo, erguendo-se na forma de uma figura heroica pela qual acabamos por torcer, apesar da revelação dos seus defeitos.

 

 

Todavia, e apesar da reinvenção inspiradora de McConaughey e do enganador título americano, o filme pertence totalmente a Tye Sheridan (Ellis). Aqui, representa um espírito inocente e confuso sobre o significado do Amor, à medida que o casamento dos pais se destrói e o romanticismo de Mud o consome, tudo enquanto se convulsa para experienciar a paixão na primeira pessoa, com uma colega de escola. É uma performance formidável que não parece sequer uma performance.

 

Com uma inspiração palpável na obra de Mark Twain – particularmente, “The Adventures of Huckleberry Finn” – “Mud” oferece-nos uma história doce que mostra apontamentos de absoluta fé na humanidade, sem ser meloso ou piegas. É a voz original de Nichols que torna a sua indagação franca dos temas, folclores e paradigmas da cultura americana tão envolvente, e nunca excessiva. Na verdade, parte de “Mud” versa sobre a exata perda desses pedaços de identidade social através da homogeneização de culturas locais e da exterminação do sonho de possibilidades maiores.

 

 

O simbolismo do plano final, onde o barco cavalga pelo rio rumo ao horizonte, é imenso: porque nem a liberdade nem a esperança deixarão que esses fragmentos de nós se despedacem com o tempo.

 

De alguma forma, e apesar do tríptico notável que construiu, Nichols ainda não adquiriu o estatuto ou reconhecimento que merece, como um dos realizadores americanos mais excitantes da nova geração. Na verdade, nem sequer o procura.

 

 

Na América ainda guiada pela promessa do sonho americano, Jeff Nichols representa uma raça rara de cineastas, que prefere enterrar as mãos na terra húmida do solo rural, do que deixar uma marca no cimento do passeio de Hollywood.

 

E talvez seja mesmo pelo melhor.

 

 

8.5/10

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