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Point-of-View Shot - Django Unchained (2012)

por Catarina d´Oliveira, em 24.01.13



"Gentlemen, you had my curiosity. But now you have my attention."

 

Numa sala onde dois afro-americanos lutam até à morte para regozijo de uma audiência Branca em pano de fundo, Amerigo Vessepi aproxima-se do bar e pede uma tequila. De costas voltadas para os acontecimentos brutais está um fenómeno emancipado, um homem de pele escura mas que caminha lado a lado com os brancos na cadeia alimentar social.

 

“Qual é o teu nome?”, pergunta o esclavagista italiano. “Django. D-J-A-N-G-O”, responde o misterioso homem, acrescentando depois “o ‘D’ é mudo”.

 

Esta simples mas memorável passagem carrega uma simbologia imensa. O italiano em questão é interpretado por Franco Nero, nada menos que o “Django” original (que se notabilizou no filme de Sergio Corbucci de 1966). Dizem os números da indústria que, depois do primeiro, se seguiram mais de trinta sequelas não-oficiais. Entretanto, Nero mantém-se até hoje como o definitivo anti-herói misterioso, que caminhava pelo oeste arrastando consigo um icónico caixão de madeira com uma cruz.

 

 

Se o Django que vemos hoje regressar às salas compete ou não com a proeminência do original, não cabe a ninguém, e muito menos a nós, medi-lo. Mas que acabamos de ganhar um novo membro inequívoco desta família, isso é inegável.

 

Django Unchained” ambienta-se ao Sul dos Estados Unidos, dois anos antes de ter lugar a Guerra Civil. O personagem titular é um escravo de historial brutal, o que o coloca em rota cruzada com o caçador de recompensas Dr. King Schultz. O alemão procura pelos violentos irmãos Brittle, e Django é o único que pode levá-lo até eles. Com a promessa da sua libertação e consequente recuperação de um Amor perdido, Django tentará cumprir a tarefa de ajudar a capturar os Brittle, vivos ou mortos.

 

O ‘D’ bem pode ser mudo, mas o mesmo já não se pode dizer do quadro geral que é o novo filme de Quentin Tarantino – uma carta de amor carregada, continuamente explosiva e esporadicamente cómica aos spaghetti westerns dos anos 60 e ao movimento blaxploitation.

 

 

 

Há algo incontornavelmente excitante na versão revisionista das histórias de Tarantino, onde este pega pedaços deploráveis de eras miseráveis para oferecer aos que sofreram a sua vingança sangrenta. O realizador continua na sua contenda para combater os maiores opressores da história através do Cinema. Em “Inglorious Basterds”, um grupo de soldados judeus americanos recolheu escalpes de nazis enquanto perseguia Hitler. Em “Django Unchained” uma fantasia de vingança apoia-se num dos mais negros e feios capítulos da história norte-americana: a escravatura.

 

As referências são imensas, e capazes de deixar qualquer movie-buff a salivar – desde o piscar de olho aos ancestrais de John Shaft (de “Shaft”, de 1971) ao folclore germânico, e da filmografia do género (com especial proeminência dos títulos de Sergio Corbucci), ao tratamento do Mandingo (relembrando o título homónimo de 1975, de Richard Fleischer) ou à sátira alusiva àquela que se subentende ser uma primeira manifestação dos Ku Klux Klan, para não gastarmos infindáveis linhas a deslindar mais. Mas este “Django Unchained” é mais do que uma mera colagem de influências, e um título que, apesar de dificilmente vir a encabeçar o top de favoritos do realizador de qualquer fã, é um dos seus mais poderosos e incendiários esforços.

 

 

Django Unchained” é estruturado como um crowd-pleaser, apesar de a sua natureza arisca estar pronta para afastar muitos dos que, de coração aberto, o virão a abordar. Tarantino é mestre em equilibrar o tom dos seus filmes, o que é demonstrado uma vez mais nesta instância, onde tem de alternar entre a comédia do absurdo, a brutalidade da vida e o incessante e chocante retrato do racismo e escravatura, infelizmente bastante precisos para a época retratada.

 

A combinação do estilo maníaco que mistura nacos generosos do cânone cultural e pop com relevância política, moral e social que abrirá, decerto, os mais variados tópicos de conversa.

 

 

O seu ridículo nunca pode ser confundido com brincadeiras de mau gosto; ao contrário, a natureza lunática parece ser o único meio aceitável para operar sobre a realidade alienada da escravatura Americana. A versão de Tarantino parece falsa, um impostor sob disfarce, fruto de uma juventude alimentada pela cultura cinematográfica que devorou enquanto trabalhou num clube de vídeo (e não só); mas é essa essência impostora, cartoonizada e quase falsificada que nos obriga a contemplar a verdade mais suja – aquela que, na verdade, não se encontrava nos milhares de westerns que lhe serviram de inspiração.

 

Apelidado de idiota, visionário, destruidor de Cinema, génio, entre muitas outras coisas, é seguro dizer que Quentin Tarantino já cimentou o seu lugar na história do Cinema contemporâneo. O próprio descreve-se, talvez, melhor do que qualquer outro: “possivelmente, cresci a ver muitos filmes. Sou atraído por este e aquele géneros, e este e aquele tipo de história. Quando vejo filmes, faço as minhas próprias versões na minha cabeça que não são exatamente o que estou a ver – por isso tiro as coisas que gosto e misturo-as com coisas que nunca vi antes”.

 

Em resumo, um inteligente e entusiástico cineasta que ama todos os tipos de filmes.

 

 

Como é hábito numa produção de Tarantino, as palavras e os ‘dizeres’ são também grandes estrelas da companhia, e o diálogo palavroso nunca esteve tão abrilhantado.

 

A utilização de uma banda sonora largamente anacrónica (que mistura a natureza vintage de faixas de Ennio Morricone com a contemporaneidade de John Legend e Tupac) não só celebra a tradição do realizador como do próprio género do spaghetti western, apesar de Tarantino aparentar estar mais interessado em basear-se nos alinhamentos mais série B, do que propriamente nos mais aclamados.

 

No elenco, Christoph Waltz é absolutamente glorioso na sua segunda colaboração com o realizador, que o coloca desta feita do lado certo da história (e poderá muito bem valer-lhe o segundo Óscar), de Leonardo DiCaprio, a figura maléfica de traço janota, é quase impossível tirar os olhos e Samuel L. Jackson é uma força da depravação e crueldade a ser reconhecida. Quanto ao protagonista, acaba por brilhar menos em tom de comparação com os secundários, mas Jamie Foxx compõe um Django instantaneamente icónico, mais adepto de um tiro veloz do que uma troca de palavras. O elenco feminino é bastante limitado mas muitíssimo bem representado por Kerry Washington, que constrói uma performance bem desenvolvida para um papel chave no enredo.

 

 

É um verdadeiro tributo às qualidades do casting de “Django Unchained” que seja impossível visionar qualquer uma destas ou outras personagens serem interpretadas por outros atores.

 

A primeira metade é gloriosa, uma obra-de-arte em total direito. Quando a ação se movimenta para a plantação de Candyland, tudo se torna menos elegante, mais grotesco e, infelizmente, mais arrastado.

 

Tarantino sempre se manteve demasiado anexado ao seu material, demasiado envolvido com as suas personagens e enredos para se conseguir distanciar até uma abordagem mais rigorosa e estrita. Mesmo com todas as tiradas elogiosas presentes, “Django Unchained” não deixa de parecer um corte grosseiro, um produto não finalizado que acabou por nunca ser visto como um todo coerente. É facilmente um dos filmes mais desequilibrados do realizador, autocomplacente a pontos tóxicos. Enquanto temos passagens intermináveis e finais falsos (especialmente na última parte), outras sentem-se totalmente desnecessárias. Assim fica a ideia de que existe um grande filme algures dentro de “Django Libertado”, mas que foi obliterado em favor de um excesso desequilibrado, que quase o faz desaparecer no reinado imaginário do próprio Tarantino.

 

 

O filme de Tarantino oferece um contraste interessante sobre o drama histórico de Steven Spielberg, “Lincoln”, que estreará nas nossas salas na próxima semana. Ambos lidam com o tema da escravatura, mas enquanto Spielberg o faz da forma politica e historicamente correta retirando de certa forma algum peso do castigo dos Brancos, Tarantino oferece uma versão dos factos visceral, nada simpática e crua que promove um sentimento de sufoco pela opressão a que assistimos. Se Spielberg aponta para o sentimento, Tarantino apronta-se a atacar a jugular.

 

É a história da carreira de um homem que vive para passar dos limites, para fazer os filmes que quer, e ultrajar intelectualmente enquanto se diverte a fazer o que tem a fazer. Muito se tem questionado se “Django Unchained” não terá sido demais, um passo (ou vários) além da linha do aceitável. Mas a resposta é simples: se tivesse sido de outra forma, certamente não seria Tarantino.

 

 

9.0/10

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