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Point-of-View Shot - Ruby Sparks (2012)

por Catarina d´Oliveira, em 07.09.12

 

"Falling in love is an act of magic."

 

Conta a lenda grega que o rei cipriota Pigmalião, um notável escultor, vivia amedrontado com a conduta imprópria das mulheres do seu império, optando por viver sozinho e totalmente mergulhado no trabalho. Mas porque uma vida de isolamento pode ser incrivelmente dolorosa, Pigmalião esculpiu uma figura perfeita de mulher a quem chamou Galateia. A mulher de marfim era tão bela e tão “viva” que o rei acabou mesmo por se apaixonar por ela.

 

Presenteando Galateia não raras vezes com roupas, joias e beijos apaixonados, o escultor estava cada vez mais enamorado pela obra, e implorou a Afrodite para que pusesse no seu caminho uma mulher à imagem da que criara.

 

Benevolente, a deusa do Amor atendeu ao pedido, e quando Pigmalião chegou a casa, a estátua de marfim ganhou vida, tornando-se, até ao fim, sua esposa.

 

 

Poderá muito bem ter sido no mito grego que Zoe Kazan encontrou a inspiração para Ruby Sparks, a comédia romântica sobre o fascínio e os limites da magia da criação que estreou entre nós nesta primeira semana de Setembro.

 

Vítima da mais violenta enfermidade artística – o bloqueio criativo – Calvin (Paul Dano), um jovem e talentoso romancista, tenta por termo à vida solitária com a criação de uma nova personagem inspiradora que, qual sonho arrebatante, é capaz de o amar. E eis que Ruby Sparks (Zoe Kazan) de seu nome lhe aparece, em carne e osso e literalmente, do outro lado da cama.

 

Ruby tem uma história e uma dimensionalidade própria, não obstante a sua origem criativa. É uma pintora de Dayton, Ohio, e tem como heróis de vida Humphrey Bogart e John Lennon. Gosta de filmes de zombies e está apaixonada por Calvin. Está tudo maravilhosamente bem para o rejuvenescido jovem prodígio da literatura. Isto é, claro, até deixar de estar.

 

 

Se os genes não fazem tudo, é certo que, pelo menos ajudam. Neta de Elia Kazan (East of Eden, 1955), e filha de Robin Swicord (argumentista de The Curious Case of Benjamin Button, 2008) e Nicholas Kazan (argumentista de Matilda, 1996), Zoe Kazan estreia-se na escrita do argumento de Ruby Sparks, onde interpreta a personagem titular.

 

O filme pertence-lhe, inequivocamente. Já que Hollywood é tão acusada de não produzir personagens femininas interessantes em número suficiente (admito que me incluo na frente dessa revolta), Kazan atacou o problema pela raiz na criação de Ruby Sparks, que em resposta à presença intimidante da “femme fatale” noutras paragens, apresenta uma espécie de “femme de couleur” que tem aflorado nos últimos anos no cinema indie norte-americano – como a eterna Clementine de The Eternal Sunshine of the Spotless Mind, ou a dinâmica Sam de Garden State ou a primaveril Summer de (500) Days of Summer.

 

Ninguém perde tempo em explicações desnecessárias sobre a origem literal da personagem titular porque, ao contrário do que poderá parecer numa primeira instância, a questão que se impera colocar não é tanto “será Ruby real?”, entendendo os meandros da sua transferência da ficção para o facto, mas “até onde irá a ditadura do controle de Calvin?”.

 

 

A mecânica das relações amorosas e, no fundo, da vida é minuciosamente analisada – a mudança constante da natureza do controle, a dinâmica das personalidades em choque e a idealização, definição e redefinição do amor, o ciúme, o medo, as dúvidas de identidade.

 

Pode ser um terreno traiçoeiro, aquele que se caminha entre a atração primordial e o assentar das hostes num relacionamento sério, e Ruby Sparks tem a partilhar uma séria lição sobre esse caminho, entre o início e não o fim, mas a continuação estável.

 

O argumento é uma mistura inteligente de comédia de alto escalão, referências literárias de luxo, e uma exposição elaborada sobre a natureza das relações e do que procuramos nelas. A boa notícia é que Kazan não torna tudo “perfeito e bonitinho”, e somos presenteados com um exercício persuasivo, mesmo quando mergulha nos volteios mais espinhosos do trato, numa criação que toma direções a fazer lembrar a história de Frankenstein.

 

 

Por mais que me apeteça prezar este esforço genuíno de equipa, não sou cega perante as suas faltas. A crise obrigatória que se inicia no final do segundo ato é um cliché, algumas peripécias pressentem-se à distância (como a última frase digitada por Calvin), e o final é dolorosamente previsível - uma coroação pouco capaz quando comparada ao elevado nível de qualidade do material que o antecede. Contudo, e tendo em conta que é o primeiro argumento de Kazan, é um feito impressionante.

 

Jonathan Deyton e Valerie Faris voltam a partilhar a carreira de realização, algo que não faziam desde o indie-hit-movie de 2006, Little Miss Sunshine. Compreendendo a essência e a importância da história que adaptam, a sua postura é incrivelmente flexível – basta colocar a câmara no sítio certo, e retocar a cena ao de leve para que a magia tenha lugar.

 

Um casal real dirige um outro casal real que, por sua vez, interpreta um casal fictício. Mel a mais? Aparentemente sim, mas factualmente não.

 

 

Paul Dano vem provar, uma vez mais, que é um dos mais versáteis e talentosos atores da sua geração com o retrato doloroso de uma personagem na qual nos revemos. Todas as emoções são amplificadas ao máximo, e é deixada a prova de como alguém é capaz de fazer da inspiração, do amor e da dor um enorme espetáculo.

 

Por outro lado, Kazan é frenética, encantadora, assustada, divertida, pegajosa, emocional e despregada, e a sua Ruby Sparks carrega em si toda a vivacidade (e sonhos) do mundo. A química com Dano é eletrizante.

 

Nos secundários, e além do essencial irmão de pés assentes no chão interpretado com rigor e graça por Chris Messina, destacam-se, obviamente, o alegre núcleo familiar de Calvin – a mãe hippie, Annette Bening e o padrasto naturalista, Antonio Banderas.

 

 

Neurótico ao ponto de fazer lembrar a melhor forma de Woody Allen, Ruby Sparks equilibra-se firmemente na linha que separa o artístico do mainstream.

 

Uma comédia romântica refrescante, com performances de alto nível, um argumento soberbo e um conceito que noutras mãos (ou circunstâncias) seria ridículo, mas que se prova aditivamente fascinante e surpreendentemente sincero nos seus intentos. Parte veículo de moralidade, parte meditação cinematográfica, parte romance inventivo luxuosamente adornado, é o tónico perfeito para uma noite de final de Verão.

 

All you have to do is believe the magic.

 

8.0/10

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