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Point-of-View Shot - The Tree of Life (2011)

por Catarina d´Oliveira, em 11.11.11

 

"Where were you when I laid the foundations of the Earth, when the morning stars sang together, and all the sons of God shouted for joy?" Job 38:4,7

 

 

Crentes ou não, decerto muitas vezes já nos questionámos sobre a dor e o sofrimento. “Porque é que isto me acontece a mim?” Apesar de genuinamente fiel a Darwin, The Tree of Life abre as hostes em fundo negro com uma passagem do Livro de Job.

 

Na narrativa bíblica, Job, um homem justo e generoso, perdeu a mulher, os filhos, a casa e a saúde. Os amigos não ajudam, culpando-o e sugerindo-lhe arrependimento pelos pecados supostamente cometidos que levaram Deus a castiga-lo. Job é tentado a amaldiçoar Deus, e em desespero deseja saber a razão por que tais coisas aconteceram. Perante tais dúvidas, Deus, que no final do livro aparece e lança uma série de perguntas retóricas, não oferece, por assim dizer, uma resposta clara.

 

Há muitas especulações, algumas bem provocadoras, relativas ao significado da história, as quais não pretendo adereçar neste espaço. Mas o que Terrence Malick ambiciona mostrar em The Tree of Life é a resposta de Deus ou da vida, como preferirem, a essa pergunta.

 

O foco é apontado para uma família comum, e expande a óptica desta relação complexa e de multi-camadas ao longo dos séculos, numa fabulosa viagem pela história da vida e dos seus mistérios. Esta é uma história simples, onde tempo e lugar não importam, que é contada num contexto espectacular.

 

 

“The only way to be happy is to love. Unless you love, your life will flash by.”

 

 

Nos últimos 40 anos, Terrence Malick criou grandes ensaios filosóficos com eventos marcantes como pano de fundo: a Grande Depressão, a 2ª Grande Guerra e a fundação da América. The Tree of Life não tem um lugar cativo no espaço ou no tempo, e é algo que o realizador tem vindo a estudar e a criar durante toda a sua carreira.

 

De variadíssimas histórias, este é um trabalho extraordinariamente visionário. Assistir a este filme é uma experiência filosófica e espiritual capaz de evocar sentimentos que, acredito, não se esgotam numa única visualização.

 

The Tree of Life traz-nos de volta a um cinema que deixou há muito de existir. Um cinema que como 2001: A Space Odyssey aspira à grandeza da vida, buscando a sua origem e o derradeiro destino, podendo até funcionar como uma resposta  espiritual à visão cerebral do universo de Kubrick. Apesar de me afastar manifestamente da teologia, reconheço em Malick uma qualidade quase inigualável: a de complementar, digamos, alhos e bugalhos, vendo em Deus a ciência, e vice-versa. Tudo isto porque não o considero um filme exclusivamente religioso, permitindo a qualquer um de nós rever-nos e reconhecer-nos nele.

 

Segundo o livro do Apocalipse “Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há-de vir, o Todo-Poderoso” (1:8). E assim começamos e terminamos, com uma espécie de chama representando o criador (seja ele qual for, o que cremos). É esta a fonte dos mistérios e ansiedades do filme. Uma entidade que em vez de dar resposta, as demonstra.

 

 

"The nuns taught us there were two ways through life - the way of nature and the way of grace. You have to choose which one you'll follow."

 

Na vida, como somos instruídos pela mãe, existem dois caminhos: o da natureza e o da graça. Os O’Brien não são propriamente personagens, mas arquétipos, ou metáforas, se preferirmos. Nesta história em particular, a mãe representa a graça e o amor e o pai representa a natureza que fará tudo pela sua própria sobrevivência. Funcionam como opostos, e os filhos são afectados por ambos. O conflito do filho mais velho, que seguimos de perto ao longo de toda a narrativa, representa um oscilar constante, o que me parece ser um desafio que todos enfrentamos ao longo do nosso crescimento enquanto indivíduos. A linha entre o bem e o mal é por vezes ténue, e a uma mentira pode seguir-se um extremo acto de bondade.

 

Quando a morte chega a esta família, Malick reenvia-nos abruptamente para o início de tudo. Formam-se nebulosas, galáxias, planetas - uma sequência da Via Láctea acompanhada de “Lacrimosa” de Zbigniew Preisner é especialmente avassaladora. Assistimos ao desenvolvimento da sopa primitiva, à ardente erupção da lava que deu lugar a um arrefecimento, que por sua vez proporcionou o aparecimento da vida que começa nas células e continua nas plantas, seres marinhos e até dinossauros – incluindo uma cena especialmente curiosa que adivinha o início da demonstração de afectos e compaixão, muito interessante.

 

E é assim que Malick quer que entendamos o ciclo. Para compreender a morte do homem, temos de compreender a história da vida, ao mesmo tempo que temos de aceitar a nossa "formiguice" na história do universo. O realizador relembra-nos ainda da da beleza da natureza que nos cerca - é nossa decisão individual ver cada movimento da Natureza como algo cruel, ou como algo sublime e único. A dor não é, não pode ser tudo; é desoladora, sim, mas passageira e faz parte da nossa vida alargar a nossa visão e capacidade de amar o que nos rodeia e de perdoar.

 

 "Brother. Keep us. Guide us. To the end of time."

 

 

A metáfora da árvore é ao mesmo tempo simples e de uma beleza única. Tal como o universo, a árvore testemunha a passagem do tempo e simboliza as ligações que nos unem. Quando o seu termo chegar, fica a semente da qual nascerá uma nova vida, que continuará a presenciar acontecimentos grandes e menores que fogem ao nosso controlo total. Esta árvore da vida tem raízes humanas, mas os seus ramos ascendem ao mistério infinito.

 

A Natureza, essa tal força avassaladora que não quer saber do homem para nada, é muitas vezes a aliada de Malick, um realizador avesso à artificialidade. A importância da luz e da cor são aqui exacerbadas, mas nunca exageradas, nunca demasiado chocantes. Os efeitos visuais são mínimos – Malick colaborou com Douglas Trumbull, que não por acaso trabalhou com Kubrick em 2001: A Space Odyssey. A abordagem orgânica de Malick é partilhada por Trumbull que admitiu em entrevista a experiência longa de criar o que vemos no ecrã, que incluiu “brincar com químicos, tinta, fumo, líquidos, CO2, foguetes, (…)”. O resultado mostra-se num realismo que os efeitos por computador ainda não atingem e talvez nunca cheguem a atingir.

 

O realismo de Malick continua pelo set adentro, onde os miúdos chegaram a ser filmados sem saberem, capturando a infância pura, e onde o guião era formado por um conjunto de ideias em vez de um conjunto de frase alinhadas. Um set que permitia aos actores total mobilidade, sem marcações, e cada take tinha uma história diferente (ainda que Malick não fosse homem de gravar mais do que dois ou três).

Há poesia em cada frame. A fotografia, esplendorosa, brinca com cores, efeitos, luzes e actores e é simultaneamente reconhecível e única, com Emmanuel Lubezki a mostrar a visão da mais simples coisas com uma beleza tão natural e tão rara no grande ecrã.

 

 

 "Mother. Father. Always you wrestle inside me. Always you will"

 

Malick conduz cinco editores (sim, leram bem, cinco!) na montagem de uma sinfonia de beleza e sentimento inabalável, acompanhada pelas presenças intimidantes dos acordes de Couperin, Berlioz, Brahms, Mahler e Bach, que se cruzam com a arrepiante banda sonora original criada por Alexandre Desplat.

 

Nas interpretações, Jessica Chastain é a epítome da luminosidade, resvalando uma qualidade etérea quase angelical. Por outro lado, Brad Pitt é fantástico como o patriarca duro, um homem bom mas magoado e desiludido, que acaba por passar as frustrações para os filhos. Sean Penn admitiu em entrevista andar meio perdido pelo set, o que acabou por se traduzir numa performance de genuína confusão e procura de significado e redenção no Jack adulto.

 

Quanto aos três jovens que tiveram aqui a sua primeira incursão cinematográfica, Laramie Eppler e Tye Sheridan são autênticos na melhor qualidade do termo. Já Hunter McCracken é a revelação, apresentando uma performance complexa no jovem Jack, cheia de nuances como poucas crianças (e não assim tantos adultos) conseguem fazer.

 

As cenas sucedem-se como memórias, relembradas pelo impacto que tiveram (e continuam a ter). Do alto dos seus imponentes 138 minutos, The Tree of Life dura muito mais do que isso, tendo a capacidade de nos mover e de nos tornar um pouco mais humildes relativamente à nossa posição no infinito. É um filme ambicioso mas que não se esquece de ser humilde.

 

 

 "I give him to you. I give you my son."

 

Uma odisseia de contemplação, redenção e renascimento que aborda a necessidade humana de dar sentido às coisas. É maravilhosamente profundo e meditativo e, infelizmente, de fácil descarte por pretensiosismo. É um filme que traz reacções polarizadas, desde Cannes, onde foi recebido entre apupos e aplausos. Se Malick poderia ter deixado de lado as preces sussurradas, os dinossauros e a formação do universo? Sem dúvida. Mas o que é a imaginação, e no fundo, a vida, sem o risco?

 

É um filme lindíssimo e imensamente abstracto por vezes, saltitando graciosamente entre tempo e espaço, numa estrutura completamente diferente do que estamos habituados.

 

Já houve realizadores a almejar as obras de arte. Hoje essa é uma espécie cada vez mais extinta, mas que pela voz de Terrence Malick, grita “presença!” num mundo assombrado pelos blockbusters. Quando o reflexo nos permite responder apenas a determinado tipo de narrativas, é difícil reajustarmos o alvo, e não culpo quem não está disposto a fazê-lo. Quem abandonou o filme a meio ou entrou nos créditos desiludido, resistiu-lhe no seu direito, completamente legítimo. Mas aqueles que deixarem levar-se, que se dispuserem a abrir alas para uma experiência singular e única viram-se imensamente recompensados no final.

 

The Tree of Life é, na minha humildade opinião, “A” obra de arte do século XXI, e a razão reconfortante pela qual sei que o meu futuro estará sempre nas mãos do Cinema.

 

 

10/10

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