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Close-Up Soap Awards 2016 - 5ª Edição | Nomeados

por Catarina d´Oliveira, em 26.02.16

lol.jpg

 

 

Como é hábito, e 275937 dias depois da data inicialmente prevista, eis que vos apresento, qual supositório indolor, a 5ª Edição dos Close-Up SOAP Awards, que como já sabem aqueles três leitores que vêm cá ao blog: são exatamente aqueles prémios de Cinema que celebram coisas que não interessam ao menino Jesus. E isto realmente só se torna interessante porque já estamos carecas de saber que o DiCaprio nos vai estragar a merda da vida a ganhar o Óscar e a destruir o trabalho de anos e anos na carreira dos memes.

 

Mas porque isto não tinha piada só com as minhas opiniões verborreicas pouco atestadas, para que esta cerimónia fictícia seja o mais participativa possível, pedia-vos que colaborassem comigo e me ajudassem a distinguir os melhores dos melhores... e dos piores... votando (em todas as categorias que puderem, mas não obrigatoriamente em todas). Mas mesmo!

 

leonardo.jpg

 

Porque almejamos sempre ao mais glamouroso, os vencedores serão anunciados durante o dia 25 de Fevereiro.

 

E agora, sem mais demoras... minhas senhoras e meus senhores, o link para a votação está AQUI e os nomeados (com bonecos e links para ajudar a identificar) são:

 

 

 (ATENÇÃO este artigo pode conter, ou melhor, contém mesmo imensos spoilers)

 

 

 

Melhor Filme que não foi Nomeado para o Oscar de Melhor Filme

Carol

Ex Machina

Sicario

Straight Outta Compton

Steve Jobs

The Hateful Eight

Love & Mercy

Creed

 

 

Melhor Filme que Provavelmente Muita Gente Não Viu

Tangerine

Me, and Earl, and the Dying Girl

Son of Saul

As Mil e uma Noites

The Assassin 

Mustang

What We Do In the Shadows

Relatos Selvajes

 

 

Melhor Blockbuster

Ant-Man

Avengers: Age of Ultron

Furious 7

Jurassic World

Mad Max: Fury Road

Mission Impossible: Rogue Nation

 

 

(Pior) Blockbuster da Loja do Chinês

Fantastic Four

Hitman: Agent 47

Pixels

Terminator: Genisys

The Last Witch Hunter

Pan

Jupiter Ascending

 

 

Pior Filme que poderá vir a ser chamado de “Oscar-Winning”

Cinderella (Guarda-Roupa)

The 100-Year-Old Man Who Climbed Out the Window (Maquilhagem)

50 Shades of Grey (Melhor Canção Original)

Spectre (Melhor Canção Original)

 

 

Pior filme para veres com os teus pais e avós

50 Shades of Grey

Love

The Duke of Burgundy

I Smile Back

 

 

Filmes que não nos atrevemos a tocar nem com um pau de três metros

The Cobbler

Mortdecai

The Wedding Ringer

Get Hard

No Escape

 

 

Melhor Twist: ou Oh diabo, pensei que este filme fosse sobre outra coisa…

Tangerine (sobre fruta)

The Big Short (sobre um tipo gordo baixinho)

Burnt (sobre a Unidade de Queimados do Hospital de S. José)

Spotlight (sobre uma loja de holofotes)

What We Do in the Shadows (sobre masturbação em locais públicos à noite)

 

 

Melhor Dinossauro

Indominus Rex, de Jurassic World

Tyrannosaurus Rex, de Jurassic World

Velociraptor (Blue), de Jurassic World

Tyrannosaurus Rex, de Minions

Arlo, de The Good Dinosaur

 

 

Inteligência Artificial? €?”#$%#”, se soubesse tinha ficado quieto

Ex-Machina

Avengers: Age of Ultron

Chappie

Terminator: Genisys

 

 

Rei/Rainha da Pista de Dança

Joe Manganiello, em Magic Mike XXL (Vídeo)

Oscar Isaac, em Ex-Machina (Vídeo)

Amy Schumer, em Trainwreck (Vídeo)

Tina Fey e Amy Poehler, em Sisters (GIF)

 

 

Melhor desfibrilhação para franchises adormecidos

Mad Max: Fury Road

Terminator: Genisys

Jurassic World

Star Wars: The Force Awakens

 

 

A Moda do Ano

Westerns (The Salvation, Slow West, Echoes Of War, Bone Tomahawk, Forsaken, The Hateful Eight, Jane Got A Gun, The Revenant)

Ter Alicia Vikander no elenco

Recuperar franchises (Mad Max: Fury Road, Terminator: Genisys, Jurassic World, Star Wars)

Brincar aos espiões (Mortdecai, Kingsman: the Secret Service, The Man from U.N.C.L.E., Spy, American Ultra)

 

 

Melhor Cameo

Daniel Craig, em Star Wars: The Force Awakens (ler aqui)

Hugh Jackman, em Me and Earl and the Dying Girl

Stan Lee, em Avengers: Age of Ultron (GIF)

Liam Neeson, em Ted 2 (Vídeo)

Daniel Radcliffe e Marisa Tomei, em Trainwreck (ver aqui)

 

 

Melhor Utilização de Banda Sonora Não Original

The Diary of a Teenage Girl (consultar tracklist)

Lost River (consultar tracklist)

Dope (consultar tracklist)

Eden (consultar tracklist)

Amy (consultar tracklist)

Love & Mercy (consultar tracklist)

Joy (consultar tracklist)

Youth (consultar tracklist)

Straight Outta Compton (consultar tracklist)

 

 

Melhor título de um filme que também serviria na indústria pornográfica

Get Hard

Magic Mike XXL

Daddy’s Home

The Big Short

What We Do In the Shadows

Welcome to Me

Sleeping with Other People

 

 

Melhor Indie que tresanda a Indie (em bom)

The End of the Tour

Grandma

The Diary of a Teenage Girl

Mistress America

Me, and Earl, and the Dying Girl

 

 

Maior Momento WTF?

O guitarrista, de Mad Max: Fury Road (GIF)

O tipo das Margaritas, de Jurassic World (GIF)

O pensamento de abstração, de Inside Out (GIF)

O momento em que um pénis de zombie é violentamente arrancado, de Scouts Guide to the Zombie Apocalypse (Ver aqui)

Os carros voadores, de Furious 7 (Imagem)

A violação em orifícios de feridas, de Human Centipede 3 (Vídeo)

 

 

A Linha de Diálogo mais Ridícula de 50 Shades of Grey

I don’t make love. I fuck… hard.” (Christian Grey)

Because I’m fifty shades of fucked up, Anastasia.” (Christian Grey)

Laters, baby.” (Christian Grey)

- Anastasia, have you been drinking?

- Yeah! I have, Mr. Fancy Pants. You hit… you hit the hail on the nead. I mean the head right on the nail.” (Christian Grey; Anastasia)

I have rules. If you follow them, I’ll reward you. If you don’t, I’ll punish you.” (Christian Grey)

You have a beautiful body, Anastasia. I want you unashamed of your nakedness. Do you understand?” (Christian Grey)

 

 

Linha de Diálogo que anima o espírito

“In the face of overwhelming odds, I’m left with only one option, I’m gonna have to science the shit out of this.” - The Martian

“Just when you think it can’t get any worse you run out of cigarettes” - Carol

“Mark Wahlberg? I look like Mark Wahlberg ate Mark Wahlberg!” – Trainwreck

“The city is flying and we’re fighting an army of robots. And I have a bow and arrow. Nothing makes sense” – Avengers: Age of Ultron

“I’m going to tear up the fuckin dance floor, dude, check it out” – Ex-Machina

“What a lovely day!” – Mad Max: Fury Road

“God sent his only son on a suicide mission, but people like him because he made trees.” – Steve Jobs

 

 

Prémio Especial - Pôr água na fervura (Eles queriam nomeações a Óscar mas só levaram rebuçados)

Black Mass

Beasts of No Nation

Concussion

Suffragette

The Walk

Irrational Man

 

 

Prémio Especial - Antidepressivos para que vos quero

Amy

Room

Dark Places

Beasts of No Nation

Spotlight

 

 

Prémio Especial – Não estou nada a chorar! Foram as cebolas!

O filme de Greg para Rachel, em Me, and Earl, and the Dying Girl

A última viagem de Paul Walker, em Furious 7

A ascensão de Adonis, em Creed

Gerda chama desesperadamente pelo marido “desaparecido”, em The Danish Girl

“Leva-a à lua por mim, ok?” (Bing Bong), em Inside Out

A despedida de Arlo e Spot... ou quando Arlo vê o fantasma do pai...ou, epá Pixar, merda!, em The Good Dinosaur

 

 

Prémio Especial – “Nossa, que biolência!”

O ataque do urso, em The Revenant (GIF)

A "despedida" de Splendid Angharad, em Mad Max: Fury Road (GIF)

RIP Zara, em Jurassic World (GIF)

Pénis cortado ao meio, em I Spit on Your Grave III (GIF)

O massacre na igreja, de Kingsman: The Secret Service (Vídeo)

A sessão de escalpe, de Bone Tomahawk (GIF)

O frio absoluto, de Everest (GIF)

 

 

Prémio Especial – Omnipresença

Alicia Vikander (The Danish Girl, Burnt, The Man from UNCLE, Testament of Youth, Ex-Machina, The Seventh Son, Son of a Gun)

 

 

 

Relembro que o voto de cada um de vocês é essencial para que esta iniciativa se torne um sucesso. Podem aceder ao formulário de votação AQUI (caso não estejam familiarizados com todas as categorias, podem votar apenas nas que desejarem). E aproveitem já que estão nisto para gostar da alegre página no facebook do blog.
 
Obrigada.
 
 

 

NOTA FINAL

Fica o pedido de desculpa se tiver ocorrido alguma omissão grave, quer nos nomeados ou nas próprias categorias – basicamente a escolha foi baseada em cinco fatores:

- filmes estreados pela primeira vez em 2015 (ou final de 2014);

- filmes que vi ou conheço o suficiente para mandar uma ou outra bujarda;

- a minha fraca memória, que decerto acabou por excluir muita coisa que aqui devia estar;

- algumas dicas que alguns amigos cinéfilos me foram dando;

- a tentativa de manter uma lista de nomes conhecidos e reconhecidos o suficiente para esta brincadeira ter piada e o máximo de pessoas possível poder votar com conhecimento de causa.

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Point-of-View Shot - Trumbo (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 23.02.16

TRUMBO-DEST.jpg

 

"What the imagination can't conjure, reality delivers with a shrug"

 

Se há coisa que não falta a Trumbo é um conjunto de intrigantes razões que edificaram a vontade que há muito trazíamos de lhe explorar os segredos.

 

A primeira é, por ventura, a mais óbvia: Bryan Cranston. Isto porque, apesar de já não ser uma cara nova nas lides de Hollywood, as performances que mais o marcaram no grande ecrã foram sobretudo secundárias. De O Resgate do Soldado Ryan, a Drive, passando por Argo, Contagion, e muitos outros, fica a sensação que Cranston não teve até aqui a oportunidade de explorar as suas máximas potencialidades dramáticas em Cinema, e talvez tenha sido o Walter White de Breaking Bad a ajudar a quebrar o enguiço.

 

Prosseguimos com o realizador Jay Roach que aqui embarca na sua primeira aventura dramática. Até aqui, a sua experiência ia pouco além das comédias de cariz físico e palerma de Austin Powers e a sátira familiar de Uns Sogros do Pior.

 

trumbo.png

 

Por fim, o elemento mais curioso, que é tão somente o objeto em observação macroscópica: Dalton Trumbo, um histórico argumentista da Era de Ouro de Hollywood, celebrado pelo engenho nas palavras, renegado pelas suas opções políticas – e enquanto é possível que o seu nome pouco dissesse a ouvidos destreinados, as suas obras deixam-se falar por si: Roman Holiday(1953), The Brave One (1956),  Spartacus (1960), Exodus (1960).

 

Estavamos oficialmente interessados, mas estaria Trumbo à altura das modestas mas sólidas expectativas que criamos?

 

O enredo ambienta-se, na sua maioria, aos anos 40, e temos encontro marcado com a carreira de sucesso do argumentista Dalton Trumbo. No entanto, e ao espelho do que ainda hoje acontece na indústria das montanhas-russas do sucesso e dos 15 minutos de fama, o seu estatuto de génio inabalável é fortemente bombardeado quando ele e outras figuras de Hollywood entram na lista negra pelas suas convicções políticas. Trumbo, que sempre se recusou a fazer segredo da sua posição política e social, juntamente com muitos dos seus pares, tornou-se assim vítimas da histeria do anti-Comunismo que reinou na América do pós-guerra, chegando, inclusive, a ser sentenciado a uma pena na prisão por desacato. A infame lista negra de “perigosos radicais” que viam o seu caminho interdito aos grandes estúdios não parou de inchar durante vários anos. Esta é, portanto, a história da sua luta contra o governo norte-americano e os patrões dos Estúdios, numa guerra pelas palavras e a liberdade, que envolveu todos em Hollywood, desde Hedda Hopper e John Wayne, até Kirk Douglas e Otto Preminger.

 

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Se isto vos parece a receita perfeita para um testemunho maçudo incognoscível sobre oposições ideológicas e políticas, podem ficar descansados: não é preciso estudar a vida de Dalton Trumbo antes do filme, e muito menos os princípios do Comunismo – desde que não esperem entender as suas raízes meramente a partir deste objeto cinematográfico.

 

De facto, Jay Roach inspira-se nas suas raízes humorísticas para conferir alguma leveza a um dos períodos mais negros na liberdade criativa e de expressão em Hollywood, transformando Trumbo numa fatia leve e informativa de uma das muitas e variadas eras da injustiça na indústria – um tema sempre atual, como podemos observar, num outro prisma, nas recentes movimentações contra a falta de diversidade na representação de papéis nas grandes produções de Hollywood. O argumento de John McNamara é também neste sentido arejado e relativamente capaz de condensar um conjunto de eventos complexos em duas horas de entretenimento acessível e informativo.

 

trumbo-3.png

 

Mas o maior problema de Trumbo surge justamente da batalha entre a informação que entretém e o retrato de uma Era verdadeiramente negra para o Cinema. Na verdade, a necessidade de entrecortar constantemente momentos de drama e seriedade com pedaços de comédia em forma de algodão doce é que se perde na tradução o tema muito, muito assustador que se pretende cobrir. E esta falta de alma e de predisposição a abraçar a seriedade sem medo de aborrecer o público não é ajudada pelo facto de o protagonista parecer repetidamente capaz de resolver todo e qualquer problema que lhe surja no caminho, qual super-herói do universo Marvel.

 

No elenco, o líder dos “Vingadores das palavras” é Bryan Cranston, que captura toda a nuance gentleman que envolvia Trumbo, bem como a sua inesgotável fonte de espirituosa produção de palavras – ditas e escritas. Do mesmo lado da barricada, vale ainda a pena destacar os complacentes companheiros de batalha, particularmente a figura compassiva e contrastante de Louis C.K., e ainda o gigantesco comic relief patrocinado por John Goodman como o irreverente Frank King, chefe de armas do estúdio de série B (ou Z?) King Brothers Productions.

 

trumbo-5.png

 

Do outro lado do campo de batalha jaz um dos maiores problemas de Trumbo: os vilões, pouco interessantes e dolorosamente unidimensionais. De facto, numa passagem tardia do filme, Trumbo sugere que não procuremos por heróis ou vilões no meio do que aconteceu, mas apenas vítimas. Não deixa de ser curioso que o próprio filme que relata tais ideais seja pouco capaz de os transferir para a película – ainda que encontre um certo grau de redenção para pelo menos um dos seus personagens mais moralmente questionáveis.

 

Resumindo e concluindo, o filme de Jay Roach é um exercício irregular de entretenimento que se quer relativamente informativo, mas não demasiadamente dramático. E é nesse equilíbrio desequilibrado que aniquila as suas próprias possibilidades de se tornar um filme excecional e importante: porque afinal de contas, apesar de representar uma luta ganha, Trumbo é um triunfo relativamente modesto – sólido e satisfatório, mas sem alma ou ambição que verdadeiramente merecia.

 

 

7.0/10

 

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Point-of-View Shot - The Revenant (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 21.02.16

revenant.jpg

 

"I ain't afraid to die anymore. I'd done it already"

 

 

Um poema frenético cravado a frio na pele ensanguentada, The Revenant revisita o mito americano com a crueza que mais com ele condiz – venal, bruta e vingativa.

 

Numa expedição pelo desconhecido território americano, o lendário explorador Hugh Glass é brutalmente atacado por um urso e deixado como morto pelos seus companheiros de caça. Na luta pela sobrevivência, Glass resiste a um sofrimento inimaginável, bem como à traição de John Fitzgerald, um dos seus companheiros de expedição. Guiado pela sede de vingança e o amor da sua família, Glass terá de enfrentar um inverno rigoroso numa busca incessante pela sobrevivência e redenção.

 

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De Leonardo DiCaprio já se disse tudo o que virtualmente se poderia dizer de um ator absolutamente dedicado à sua arte. Depois de anos a fio a usar memes e engenhos humorísticos para gozar o facto de nunca ter levado um Óscar para casa – não obstante as vezes que o mereceu – será, certamente, este o ano que lhe quebra o enguiço. E apesar de ser uma performance profundamente instintiva, fisicamente complexa e matizada e extremamente impressionante, é difícil encaixá-la sequer no top 3 do cânone do ator, o que não deixa de parecer mais uma curiosa confirmação da célebre asserção de Katharine Hepburn sobre as estatuetas douradas: “os atores certos ganham sempre o Óscar, mas pelos papéis errados”.

 

Tanto ou mais surpreendente é Tom Hardy que aparece fiel à forma que lhe conhecemos – o que significa 100% carismático e 50% ininteligível no discurso. Fitzgerald não é um personagem propriamente complexo, aparecendo como um vilão ligeiramente cartoonizado, cujo momento mais humano surge quando descreve pormenorizadamente o que sentiu quando lhe arrancavam o escalpe a sangue frio. Fun!

 

the-revenant-trailer-screencaps-dicaprio-hardy34.p

 

Mas voltando às considerações gerais, o novo filme de Alejandro G. Iñárritu ambienta-se a um vértice fascinante da ainda breve história americana, mesmo antes de os caminhos serem trilhados, de os cowboys serem intitulados, de os homens armados de emblemas e fogos abrirem caminho pelo Oeste. É quase um cenário Bíblico, num mundo aparentemente sem lei onde a justiça se faz “olho por olho, dente por dente”. Aqui a única lei que impera é a da vingança em bruto, a única que importava naquele momento singular da história, aquele momento que se propaga numa saga de dor e determinação.

 

The Revenant é, assim e sem qualquer margem para fantasias, um violento western que só parece passado num cenário nevoso para expor ainda mais o sangue, suor e membros decepados. Iñárritu maravilha-se com a virgindade da terra, contraposta com a malevolência humana – a simples selvajaria inocente de tudo, desde as árvores sem fim, aos prados cobertos de branco, aos rios enraivecidos. Digamos que, em diversas formas e medidas, é, para o bem e para o mal (já lá iremos) o Gravity dos westerns - visceral e de tal forma eletrizante que transcende a própria narrativa.

 

O pano abre numa espécie de floresta alagada e húmida, de aspeto pouco convidativo, atolada de homens que trocaram qualquer noção de conforto pela possibilidade de fazer algum dinheiro extra no mercado das peles. Enquanto o gangue discute (pouco) alegremente assuntos mundanos, as setas começam a voar, e porque Iñárritu filma tudo com uma misteriosa obsessão pelo natural, é quase possível sentir a roupa pejada de lama, a água a consumir-nos os ossos, o sabor metálico do sangue a inundar-nos a boca. Toda a cena é filmada ao estilo de Birdman, o que significa que navegamos etereamente pelo caos, saltitando de personagem em personagem, enquanto estes rijos do Oeste tentam escapar vivos à fúria dos Índios que apenas procuram recuperar uma “princesa” desaparecida. E esta cena é apenas uma miniatura de tudo o resto.

 

the revenant.jpg

 

É uma espécie de paradoxo – aparentemente desnecessariamente cruel, mas é essa mesma dimensão ríspida que mantém a noção de que o Velho Oeste Selvagem era, de facto, desnecessariamente cruel. É certo que quase parece retirar um prazer retorcido da sua própria sanguinolência, num niilismo resvalado numa escuridão que ilustra sem espinhas que a selvajaria do Oeste selvagem não significava propósito, ou independência, ou liberdade. Aqui o selvagem era genuinamente bruto, desumanamente natural e inescapavelmente imperdoável.

 

The Revenant é visceralmente diferenciado de Birdman, mas também dos enredos entreligados dos anteriores filmes de Iñárritu (onde se contam, por exemplo, 21 Grams e Babel). Desta feita a história é extraordinariamente simples, inclusive a um ponto prejudicialmente detrimental. De facto, a ambição filosófica e moral é tão exacerbada que no momento em que chegamos à ansiada represália, depois de tanta dor, morte, planos da natureza e minutos inexplicavelmente queimados, é muito difícil não a sentir como uma relativa desilusão.

 

revenant-gallery-19.jpg

 

Na verdade, o que fez Birdman funcionar tão bem foi o harmonioso casamento entre o virtuoso estilo do realizador e o estado caótico da psique das suas personagens. Todo o pandemónio miraculosamente organizado trabalhava em prol da história de um homem que, procurando reencontrar-se consigo mesmo, se perdia ainda mais. Em The Revenant, o estilo e a história não só não parecem estar na mesma página – parecem arrancados de livros diferentes. O investimento feito em encantar os nossos olhos através de cenas que são manifestamente indeléveis (Emmanuel Lubezki destaca-se uma vez mais como um dos mais talentosos e disruptivos diretores de fotografia dos nossos tempos), o mais recente filme de Iñárritu não consegue deixar de se sentir frustrantemente frio, incapaz de nos assoberbar o coração como nos revira as entranhas.

 

Feitas as contas, The Revenant parece mais uma experiência do que um filme propriamente completo e totalmente coerente. Todavia, esse tipo de cinema, esse raro tipo de cinema que nos transporta inesperada e inescapavelmente para um outro tempo e espaço, ao ponto de lhe cheirarmos os odores, de lhe sentirmos os chãos, de lhe sofremos as dores, é sempre bem-vindo.

 

 

7.5/10

 

 

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Point-of-View Shot - Spotlight (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 10.02.16

 

spotlight.jpg

 

"I'm not crazy, they control everything"

 

Há vários tipos de filmes no mundo, mas apenas alguns deles têm o potencial de nos inspirar (nem que momentaneamente) a mudar de carreira.

 

Rocky fez-nos querer acordar cedo, tomar suplementação e treinar incansavelmente. Braveheart fez-nos querer pintar a cara e lutar pela liberdade com um kilt. Gandhi fez-nos querer ser melhores humanos. Que diabo, Forrest Gump fez-nos querer correr como se não houvesse amanhã!

 

Depois há Spotlight... o filme que nos impele a procurar temas fraturantes e esmiuçá-los até não sobrar nada mais que osso e uma revelação essencial.

 

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E se nos permitem o auxílio de uma útil analogia, o filme de Tom McCarthy é como uma boa banda de cera: uma vez colocada, já não há volta a dar, só resta arrancar. Ambientado ao estado de coisas em 2001, a película baseia-se em factos verídicos e segue a tenaz equipa de repórteres de investigação do Boston Globe. Liderada pelo respeitado mas rebelde Robby, a equipa conhecida por Spotlight trabalha afincadamente para investigar alegações de abuso no seio da Igreja Católica, mas nada os podia preparar para o alcance catastrófico do escândalo ou o quão longe vai a praga de fraude e apatia.

 

Cinematograficamente falando, o conceito de recontar a história de Spotlight tinha tudo para correr horrivelmente mal, mas sob a alçada da mestria de McCarthy, tudo se conjuga com a mais refinada precisão. Honestamente falando, Spotlight é um dos melhores dramas sobre jornalismo de investigação da história do Cinema, equilibrando-se nas alturas com as icónicas presenças de gigantes como All the President's Men ou The Insider.

 

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Equilibrado e astucioso, Spotlight é especialmente exímio na exploração da “área-cinzenta”. Se por um lado os vilões não podem exatamente ser considerados exclusivamente vis, também os heróis não são retratados como tal, estando inclusivamente abertos a um retrato que não persiste sem uma parte de mácula. “Se é preciso uma vila para criar uma criança, é preciso uma vila para abusar de uma”, diz, a certa altura, um dos personagens. E no filme de Tom McCathy ninguém sai incólume.

 

O elenco é formidável, de uma ponta à outra, e grande parte da razão para o sucesso da película. É que este trata-se de um puro exercício de “esforço de equipa”, onde cada ator trabalha com a inteligência da subtileza para não roubar qualquer foco ou importância ao poder do material-base, e no entanto, toda e qualquer performance é crucial para o sucesso do conjunto.

 

O sentido de gestão e contenção é transportado para o fantástico argumento, um musculado exercício em economia – cada palavra importa e cada cena existe com um propósito: o de levar a investigação mais longe. Adicionalmente, não há atalhos desnecessários para a vida pessoal de qualquer um dos jornalistas, o que nos obrigaria ou a requerer um ponto-de-vista único e profundo ou a solicitar a amalgama dos pontos-de-vista de todo o elenco. Ambas revelar-se-iam tarefas incompletas ou virtualmente impossíveis. E McCharthy e Josh Singer escolheram a premissa do distanciamento, dando-nos a conhecer apenas o estritamente necessário sobre cada um dos jornalistas e deixando que o seu trabalho defina o resto da sua figura cinematográfica.

 

spotlight02.jpg

 

Por outro lado, os sobreviventes não são vítimas – uma diferença crucial estabelecida pelo filme – e o argumento dá um honroso espaço às suas desoladoras histórias e experiências que, emergindo de uma catarata de vergonha, medo e lágrimas, nunca são reduzidas a meros adereços para chegar a um determinado fim.

 

McCarthy orquestra a investigação procedural com precisão cirúrgica, aplicando uma noção de ritmo inacreditável para um filme que contem cenas que se estendem por minutos e que versam sobre esse “lírico” tema que é o obstáculo da burocracia para aceder documentos selados pela justiça mas abertos para consulta pública. E, como que por magia, essas são genuinamente entusiasmantes.

 

Mas o sabor que fica na boca depois de um autêntico showcase de exímia subtileza e contenção estilística não deixa de ser angustiante, como se cinzas se desfizessem na boca. Porque é impossível afirmar com franqueza de um espírito puro que se gostou do filme de McCarthy.

 

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O derradeiro e mais violento soco no estômago chega no final. Spotlight não é um filme para se gostar. É um filme para enraivecer, para gritar. Para acordar e magoar. E como a respetiva reportagem que o inspirou e que não podemos esquecer, é um filme para nos mudar.

 

Tenso, meticuloso e pernicioso, Spotlight é a narração essencial de um escândalo contemporâneo.

 

 

8.5/10

 

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Point-of-View Shot - Joy (2015)

por Catarina d´Oliveira, em 03.02.16

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"Don't ever think that the world owes you anything, because it doesn't. The world doesn't owe you a thing"

 

Era uma vez, uma bela e pura menina de cabelos dourados, filha de um comerciante de sucesso, que sonhava com uma vida feliz e preenchida, num futuro que desejava não muito distante. Um dia, um príncipe encantado chegou, arrebatou-a e salvou-a de uma existência infeliz e abusiva, e viveram felizes para sempre.

 

Esta é a história de Cinderella, e esta poderia muito bem ser a história de Joy. Contudo, em contos que não são de fadas, mas de gentes, não há príncipes, nem carruagens mágicas, nem feitiços até à meia-noite. Há independência, dedicação sem horários e... uma esfregona milagrosa.

 

Inspirado nas histórias verdadeiras de mulheres audazes’: assim abre portas o “Joy” de David O. Russell, que poderia simplesmente ter pedido emprestada a citação que introduziu o irmão mais velho, “American Hustle”: ‘alguns destes factos aconteceram realmente’.

 

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O nono filme no currículo do realizador nova iorquino é dissolutamente baseado na história de Joy Mangano, uma mãe solteira de Long Island que, no início dos anos 90, revolucionou a sua vida de simplicidade ao desenvolver uma invenção miraculosa que facilitaria a vida doméstica a muito boa gente e que a tornaria numa superestrela das (agora olvidadas) televendas. 

 

Numa primeira instância, e apesar de sofrer de diversas maleitas – já lá iremos - “Joy” é deliciosamente refrescante: Hollywood não se coíbe de explorar insistentemente a galinha de ovos de ouro que é o ethos nacional do Sonho Americano, mas são raras as vezes em que esse sonho se transporta de salto alto e se fortalece à base de estrogénio palpitante. Contemporaneamente feminino (sem ser pejorativamente feminista), “Joy” é uma ode à mulher moderna.

 

E já que falamos em mulher moderna... Entre bochechas redondas e olhar juvenil, é difícil engajar a suspensão de descrença ao ver Jennifer Lawrence passar por uma trintona com dois filhos, mas se “Joy” teve algum êxito indiscutível foi nesta sua inesperada aposta. No seu papel mais carnudo desde “Despojos de Inverno” – o glorioso e humilde indie que a lançou na rota do estrelato em meados de 2010, e que lhe valeu, inclusive, a primeira indicação a Óscar – Lawrence marca uma posição forte e credível, construindo uma personagem relacionável e estratificada que serve de derradeira boia de salvação entre a ciclónica bagunça tonal de O. Russell. É ela que consegue, ainda que marginalmente, colocar o filme com os pés na terra. E sempre que surge uma oportunidade para brilhar, Lawrence não desaponta, seja na dureza com que enfrenta a desonestidade de oblíquos homens de negócios, seja no retrato matizado que faz de uma mulher simples mas de grandes ideias.

 

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À exceção de um competente e sóbrio Bradley Cooper, o elenco secundário (composto, entre outros, por Robert De Niro, Isabella Rosselini e Virginia Madsen) pouca margem tem para dar ares de sua graça, muito culpa do argumento, muito mecânico e pouco emocional, que torna a família de Joy particularmente subdesenvolvida, irritativa e caricaturada, com o objetivo simultâneo mas pouco conseguido de arrancar gargalhadas e estabelecer contraste com a honrada protagonista.

 

Esta é, na verdade, uma deformidade (infelizmente) atual de O. Russell, que parece cada vez mais obstinado em incluir “caricaturas do seu tempo” em cada uma das suas produções, apenas porque o pode fazer. De facto, a “família tóxica” sempre fez parte do núcleo dos seus temas recorrentes, mas enquanto noutros momentos existiu uma forte ligação entre a opressão e a rejeição e o amor e a necessidade, explorando-se depois o impacto e significado dessa relação abusiva para o protagonista, “Joy” não vai além do subdesenvolvimento e da inconsequência de uma família disfuncional apenas porque é disfuncional, nem sequer explorando os verdadeiros efeitos que essa realidade abusiva teria na protagonista ou sequer abordando a natureza controversa da dinâmica dessas relações negativas – matéria em que O. Russell já foi, inclusive, especialista (veja-se a destreza com que o fez, por exemplo, em “The Fighter”, 2010).

 

Rapidamente, o dispositivo torna-se então progressivamente mais fatigado e, naturalmente, atrasa todo o restante processo narrativo e emocional. Assim, a primeira parcela da fita – mais focada no ambiente familiar e a consequente rutura do mesmo – é manifestamente mais morosa e menos dinâmica.

 

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É a partir do segundo ato que “Joy” brilha – talvez no momento em que o realizador deixa de se encantar por cartoons e volta a interessar-se pela história da mulher que o inspirou em primeiro lugar – tornando-se verdadeiramente envolvente e eficaz, deixando-se submergir nos sucos da fascinante envolvência empreendedora do enredo.

 

Consequentemente, o filme de O. Russell não ressoa propriamente como uma biografia memorável, mas mais como uma leve e fofa fatia de espírito empreendedor, contaminada por um ritmo inconstante, uma direção incerta e um grupo de personagens secundários desconfortável.

 

Há uma película notável algures, mas poluída por uma contaminação que não lhe pertence. Afinal, talvez lhe faltasse uma ou duas passagens pela tal esfregona milagrosa...

 

 

7.0/10

 

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