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"You cant ask why, about love"
Diz-se que o mundo está para acabar num dia próximo, e talvez por essa razão, o Cinema de Hollywood decidiu este ano ser especialmente ousado. Desde “Cloud Atlas”, o filme que fala sobre tudo, a “Les Misérables”, o primeiro musical onde os intervenientes cantam ao vivo, passamos ainda pela singular abordagem de “Anna Karenina”, uma das estreias desta semana.
Regressamos ao séc. XIX, reimaginado sob a alçada da opulência da alta-sociedade russa para revisitar a história da personagem titular, uma famosa aristocrata que se vê envolvida num caso extraconjugal que colocará em causa o seu estatuto na sociedade e família. A exploração da capacidade de amar, em todas as suas formas, nasce das palavras do celebrado autor russo Leo Tolstoy, que vê a sua obra – considerada por alguns como o melhor romance alguma vez escrito – adaptada para o argumento de Tom Stoppard, que escreveu, entre outros, “Brazil” (1985) “Empire of the Sun” (1987) e “Shakespeare in Love” (1998).

Aproveitando a deixa, e parafraseando o Bardo, “o mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres não passam de meros atores; têm saídas e entradas, e cada um no seu tempo representa diversos papéis”. A este propósito, Joe Wright cria aqui um conceito que é simples de explicar, mas terrivelmente difícil de executar: o romance é apresentado como uma peça dentro de um filme, um olhar microscópico sob a vida deste pedaço de aristocracia da bancada de uma produção teatral, usando apenas quando estritamente necessário uma linguagem e expressão cinematográfica mais tradicional, um pouco incompreendida entre a crítica que praticamente apelidou a sua abordagem de “salta-pocinhas de necessidade”.
O dispositivo aparentemente bifurcado serve, no entanto, um claro propósito de comentário social sobre a forma como a alta sociedade tem sempre um papel a representar e, por oposição, como a vida rural e simples é sinónimo de uma vivência mais real e orgânica, livre da artificialidade.

Não são mecanismos subtis, mas é essa também essa exposição “desavergonhada” que torna “Anna Karenina” num pedaço cinematográfico com sabor igual a nenhum outro. O conceito é visual e intelectualmente estimulante, um exercício de interseção entre literatura, cinema e teatro que, apesar de não ser a melhor incursão do realizador – nunca consegue suplantar o poder dramático e emocional de “Pride and Prejudice” e “Atonement” – é entusiástico, corajoso e vistoso.
Inteligentemete, Stoppard mantém o diálogo de Tolstoy intacto em muitos momentos, acrescentando passagens sempre que necessário e com intuitos que acabam por ser claros e bem-sucedidos no contexto geral do ensaio. Os temas abordados pelo autor russo não são totalmente cobertos, sendo dada clara e justificada primazia à tragédia central da trama, pondo-se em segundo plano algumas observações sobre o progresso, a sociedade e a desigualdade entre classes trabalhadoras e aristocráticas – sendo que todos têm direito a pequeno tempo de antena, deve referir-se.

Grande parte de equipa reunida por Wright é repetente, como os casos do diretor de fotografia Seamus McGarvey – que uma vez mais cria planos-sequência que prometem perpetuar nas memórias mais apaixonadas pela arte –, o compositor Dario Marinelli, cujas valsas confluem perfeitamente com o visual e sumo da obra, Jacqueline Durran que produz um guarda-roupa esplendido e digno das maiores honras, e Sarah Greenwood que oferece ao design de produção o maior detalhe e luxo.
No elenco, Keira Knigthley cria uma Anna complexa e contraditória, que tanto é heroica como quase vilanesca, fazendo revisitar o eterno dilema sobre a protagonista: será ela uma vítima do seu posicionamento numa sociedade patriarcal, ou uma mulher neurótica e narcisista?

Se Jude Law fosse dez anos mais novo, seria uma escolha óbvia para interpretar o fervoroso Conde Vronsky sendo, como já veio a provar em papéis semelhantes, fabuloso. Felizmente, a cara laroca vem acompanhada de talento, e é uma lufada de ar fresco ver Law num papel que foi tantas vezes o dos seus “rivais” românticos, e o ator britânico vive-o intensamente.
O erro mais gritante da produção jaz no casting do Conde Vronsky, e Aaron Taylor-Johnson (que tinha dado promissoras indicações em “Savages” de Oliver Stone ainda este ano) cria um amante esmagado pelo uniforme e opulência do seu bigode que, além do visual manifestamente agradável à vista, poucos mais atributos apresenta à emoção que justificassem uma qualquer pinga de simpatia por si.

Os intervenientes secundários – onde se destacam Matthew Macfadyen, Kelly Macdonald, Domhall Gleeson e Alicia Vikander – são bastante sólidos ainda que, por manifestos constrangimentos de tempo e espaço, vejam a sua ação confinada à brevidade da adaptação.
O maior e definitivo problema de “Anna Karenina” é, infelizmente, dramático. Resumir uma obra de mais de 800 páginas a duas horas é uma luta desigual e impossível de vencer perante todos aqueles que já viajaram pelas páginas envelhecidas de Tolstoy. A tragédia é condensada e acelerada, mas mesmo assim, fica a ideia de que algo poderia ter sido feito para tornar esta história naquilo que ela verdadeiramente foi e é: uma tragédia com grandeza e poder de ópera, e não um simples melodrama relativamente estéril, que se vai tornando menos estimulante pelo caminho. O estilo prevalece sobre a substância, e o storytelling é, em determinados momentos, irregular.
De todo o modo, “Anna Karenina” pode ter falhado algumas notas pelo caminho – como o fez -, mas criou mesmo desse jeito e forma um evento cinematográfico, um tema de conversa, um filme que ambicionou quebrar as convenções da tradição de filmar uma história, contando-a numa espécie de híbrido de meios. Um quadro vivo transposto para um orgasmo visual, uma espécie de ballet sem dança infundido numa ópera sem cantores.
Consegui-lo com este grau de sucesso, é um feito, e o que sobra são duas horas do mais ousado, sumptuoso, luxuoso e belo Cinema do ano.
E aí está ela. A deixa para aplaudir de pé.
7.5/10