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Point-of-View Shot - Fight Club (1999)

por Catarina d´Oliveira, em 11.08.09

  

Fight Club é uma experiência cinematográfica única que me parece não admitir meio termo.  Ou se admira e se eleva a um estatuto de ícone e filme de culto, ou simplesmente de odeia pela (aparente) violência e mau-gosto gratuitos. Esta não será uma crítica comum, porque também o filme não o é.

 

Esta é uma crítica multiforme. É ao mesmo tempo um artigo, um ensaio e um estudo, e desde já advirto para a sua extensão. De facto vou ter de quebrar as duas primeiras regras do Clube de Combate e falar sobre ele. Não tentarei convencer quem não gostou a gostar; vou apenas partilhar a minha interpretação devidamente justificada, e sem mais demoras, vamos a isso...

 

*** *** ***

 

Num interessante fenómeno evolutivo, Fight Club é um ácido comentário cada vez mais actual sobre uma sociedade castrada pelo consumo e cada vez mais desprovida de espírito e humanidade. É a história da viagem espiritual de um homem vulgar em busca do seu lugar no mundo.


O narrador e protagonista não vê o seu nome revelado ao longo de toda a fita, reforçando ainda mais o facto de esta ser apenas uma entre muitas faces, um homem que como outros tantos milhões de nós, deambula sonambulamente pela vida sem estar acordado ou a dormir. Para facilitar, chamá-lo-ei de Jack.

 

 

“Like so many others, I had become a slave to the Ikea nesting instinct”  (Jack)


Jack tem um trabalho insignificante pelo qual não sente qualquer empatia. A sua vida é caracterizada pelas mobílias que tem e as roupas que veste e ele é apenas mais um grão de areia no enorme areal da máquina capitalista que controla o mundo por meio de empresas sem cara.
 

“When people think you’re dying, they really, really listen to you instead of just waiting for their turn to speak.” (Jack)
 

Na procura desesperada por algum conteúdo por que valha a pena viver, Jack, a conselho do médico, começa a visitar grupos de apoio para pessoas com doenças graves. Jack liberta-se finalmente e não ele mas o público começa a compreender a gravidade da negligência humana perante as relações sociais, o significado da vida e o tempo que dedicamos a nós mesmos. Ele, Jack, é apenas o protagonista de mais uma gota de ácido no goto da sociedade; um sanguessuga.


Numa viagem de trabalho Jack conhece o extravagante Tyler Durden, um vendedor de sabões com uma filosofia de vida muito particular. Nada disto passaria de um encontro totalmente casual não fosse o apartamento de Jack ter pegado fogo e destruindo todos os seus bens. Sem ninguém no mundo mas o futuro no bolso, Jack liga a Tyler e muda-se para a sua casa.

 


“The things you own end up owning you.” (Tyler)

 

Tyler é o negativo de Jack: um niilista anarquista que é apaixonado pela liberdade da vida e abraça uma existência independente dos padrões e expectativas sociais. Tyler torna-se mestre e companheiro de Jack. Juntos criam o Clube de Combate, um local onde a camada primitiva do homem volta a reinar e onde os escravos da sociedade consumista passam a ser dominadores. O Clube não era um local de vitórias ou derrotas, ou de vinganças ou de palavras; era um local de meditação, de salvamento e de liberdade.


As regras foram e não foram feitas para serem quebradas. As regras foram feitas para a sociedade sobreviver, funcionar e evoluir. As regras foram feitas para inibir, aprisionar e limitar. É claro; há quem quebre algumas regras ou muitas regras. Mas nao há quem quebre todas as regras. O próprio caos é gerido por regras.

 


"Welcome to Fight Club. The first rule of Fight Club is: you do not talk about Fight Club. The second rule of Fight Club is: you DO NOT talk about Fight Club!" (Tyler)

 

A acção desenvolve-se, assim como o desejo de caos de Tyler que começa a tornar-se notado tanto pela audiência como pelo próprio Jack, antes embriagado com o sentido de liberdade e vida do Clube de Combate, agora seriamente assustado e desenquadrado das proporçõesda mega Operação Mayhem (criação de um exército livre para desconstruir e destruir as ideias difundidas pela América capitalista).

 

Para muitos será complicado extrair a verdadeira essência de Fight Club, e não os censuro. É preciso estar preparado, é preciso estar atento, é preciso estar aberto à interpretação e, de certa maneira, é preciso estar preparado para levar uns bons murros no estômago.

 


"Fight Club was the beginning, now it's moved out of the basement, it's called Project Mayhem." (Tyler)

 

Este é um filme que desafia e pretende incomodar, correndo por isso o risco de ser incompreendido. Não sou, nem de longe detentora, da razão, mas na minha interpretação e opinião, dois erros são comuns na abordagem a Fight Club.

 

O primeiro e mais comum é tomá-lo como um produto violento e abrutalhado sem cérebro.

Fight Club recusa-se a ser ignorado ou descartado. Não é entretenimento insensato, estúpido e semeador de violência.

 

Ninguém nega que é violento; algumas sequências farão certamente muitos espectadores virar a cara (eu incluída). Ela serve como elemento explicatório da natureza animal do Homem. Ela é, aliás, uma personagem. Encaixa-se tão bem no enredo que é difícil imaginá-lo sem ela, ainda que a condenemos no mundo real. Os homens que aderiram ao Clube de Combate são meras vítimas do processo desumanizante da sociedade de consumo, e a única forma de se sentirem vivos de novo é re-aderindo aos instintos mais primitivos da dor e da violência.

 

Mas uma vez cientes disto, corremos ainda o risco de cair no segundo erro.

 

"We're the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our Great War's a spiritual war... our Great Depression is our lives." (Tyler)

 

O segundo, e talvez ainda mais perigoso erro, é tomar as mensagens do filme pelas mensagens dos personagens, mais concretamente, de Tyler, um confesso niilista e fascista com uma queda para a violência e destruição. O terrorismo e o vandalismo não são, obviamente, a solução para nenhum problema. Mas uma das questões que Fight Club faz questão de sublinhar é que um homem pode, de facto, fazer a diferença e que somos bem mais importantes do que aquilo que possamos acreditar.

 

Ainda neste sentido, até podemos sublinhar a ironia das resoluções de Tyler. O Clube de Combate é de facto um "escarafunchar" na ferida aberta da sociedade; uma sociedade consumista e robótica que parece ter-se esquecido de viver. Todavia, a evolução para a Operação Mayhem tornou este projecto uma representação da própria ideologia que criticava. Afinal este exército obedece cegamente a um líder e rende-se à passividade cerebral.

 

A história de Tyler é, inclusive, interessante a nível histórico, uma vez que podemos relacioná-la com a subida ao poder de homens como Hitler que em pessoas desajustadas e infelizes encontraram inúmeros apoiantes apenas convencendo-os de que o problema estava nos outros e no sistema.

 

 

"And then, something happened. I let go. Lost in oblivion. Dark and silent and complete. I found freedom. Losing all hope was freedom." (Jack)

 

O argumento (escrito por Jim Uhls e adaptado do romance de Chuck Plahniuk) é aguçado e rapidíssimo, sendo dominado por um diálogo muitas vezes habitado pela inteligência e o humor negro. David Fincher é sublime tanto na técnica e estilo por trás das câmeras (com close-ups gráficos, manipulação em computador e cortes rápidos), como em aproveitar o máximo do elenco brilhante de que dispõe.

 

Edward Norton é conhecido (ainda que infelizmente pouco reconhecido) pelas suas performances inteligentes e versáteis. Cada um dos seus papéis parece ter sido escrito para si, e este não foi diferente. Norton faz de Jack o nosso elo de ligação com o universo Fight Club. É com ele que simpatizamos e é nele que vivemos aquelas duas horas e vinte. Numa cena famosa e absolutamente genial, Norton retrata um Jack enlouquecido que se esmurra a si próprio insanamente para obter um aumento perante um patrão estupefacto e assustado.
 

Brad Pitt tem em Tyler um dos seus melhores trabalhos de carreira e um dos personagens mais carismáticos do cinema moderno. Muito dinâmico em termos físicos (aliás, tal como Norton), Pitt é o espelho da loucura e da inteligência.


Nos secundários, vale a pena destacar mais três pessoas: Helena Bonham Carter (brilhante na louca e apaixonada Marla), Jared Leto e Meat Loaf (como Angel Face e Bob, respectivamente).

 

"On a long enough timeline, the survival rate for everyone drops to zero." (Jack)

 

Fight Club é uma obra desafiadora que requer dos seus espectadores apenas o respeito e dedicação para olharem para lá do seu visual exterior ciclónico e sangrento.

Num registo algo distinto, é muitas vezes comparado a The Clockwork Orange de Stanley Kubrick, e em cada segundo, a experiência é tão surreal como o clássico dos anos 70.


Os compromissos, os deveres, as expectativas. Os trabalhos, as casas, a sociedade.
Todos eles nos limitam e todos eles nos podem tornar escravos.

Muitas vezes não passamos de cobardes, medrosos de mais para seguir um caminho diferente ou sequer aceitar a mudança. A vida passa sem parar e nem chegamos a dar por isso porque estamos muito ocupados com coisas que não interessam.

 

Interiormente, todos desejamos encontrar o nosso próprio Clube de Combate (não necessariamente de uma forma literal andando à pancada claro). E eu, pela parte que me toca, espero também encontrar o meu.

 

 “This is your life and it’s ending one minute at a time”

 

9.5/10

 

(*) Porque não o 10? Porque depois de uma hora genial, os útimos vinte minutos revolvem à volta do twist final por mais tempo do que deviam. No entanto, a cena final é inesquecível.

 

(*)(*) Aconselho-vos a leitura da crítica do meu amigo blogger Filipe Coutinho no seu Cinema Is My Life cuja opinião é muito semelhante à minha embora apontemos o foco para questões diferentes e, em algumas questões, tenhamos opiniões diferentes. De todo o modo, dêem lá um saltinho, aqui.

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