"The very meaninglessness of life forces man to create his own meaning. If it can be written or thought, it can be filmed." - Stanley Kubrick
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"I let them down. I let down my friends, I let down my country (...) And I'm gonna have to carry that burden with me for the rest of my life. My political life is over"
 

Antes de começar a crítica propriamente dita, devo admitir que, antes de assistir a este filme, não me era muito clara a questão de Watergate ou da Presidência de Nixon. Afinal, tudo se passou cerca entre 20 e 15 anos antes de eu nascer. No entanto, fazia-me confusão ver um filme desta espécie sem saber de facto as bases que o sustentavam. Por isso resolvi fazer um pequeno “estudo” acerca da Presidência de Nixon e do escândalo Watergate antes de ver o filme.
Como compreendo que algumas pessoas possam estar em situação semelhante à que eu estava – de alguma ignorância – resolvi colocar aqui uma breve introdução histórica relativa ao tema que elucida, muito resumidamente, as questões mais importantes. Para os que assim o desejarem, cliquem em baixo para o pequeno resumo.
Breve Introdução Histórica
Richard Milhous Nixon foi o 37º Presidente dos Estados Unidos da América.
Eleito em 1968, Nixon aplicou políticas internas e externas que se provaram muitas vezes benéficas para a América, sendo este homem amirado pelo povo. Não foi estranho quando, em 1972, foi reeleito com uma esmagadora vantagem sobre o seu oponente.
No entanto, o segundo ano de mandato não viria a correr de feição; esperavam-se valentes dificuldades económicas (e não só!). E eis que, inesperadamente, a bomba rebenta: afinal, o bem-amado presidente era corrupto, e, afinal, talvez a esmagadora vitória nas segundas eleições não tivesse sido assim tão clara.
Esta “bomba” ficou conhecida como o “Caso Watergate”.
Durante a campanha de 1972 que resultou na tal reeleição fulgurante de Nixon, deu-se um bizarro assalto à sede do Comité Nacional Democrata no Complexo de Watergate. Cinco pessoas foram detidas enquanto tentavam apoderar-se de cópias de documentos e instalar equipamento de escuta no escritório do Partido Democrata.
Ora, a partir de uma investigação minuciosa por parte de dois jornalistas do Washington Post, vieram a público várias gravações e documentos que comprovavam o conhecimento por parte de Nixon destas operações ilegais.
Em 1974 era claro e impossível de negar por mais tempo: O Partido Republicano e Nixon tinham sucumbido à corrupção e isso era visível a toda a nação. No dia 9 de Agosto do mesmo ano, Nixon tornou-se no primeiro Presidente a renunciar à posição.
Passando ao filme…

 

A fita abarca o período pós-renúncia de Nixon. David Frost, um entusiasta apresentador de programas para multidões britânico propõe-se a ser o primeiro a entrevistar o ex-Presidente. A tarefa não é fácil, seguindo-se obstáculos atrás de obstáculos, no entanto, a grande entrevista acaba mesmo por acontecer. E foi nessa mesma entrevista, mesmo no final que Nixon finalmente assume culpas e se desculpa ao povo Americano.
Se a sinopse que podemos fazer de Frost/Nixon é breve e directa, não podemos dizer que seja realmente justa, apesar de conformar objectivamente com o desenrolar narrativo. De facto, para um espectador que não seja muito afecto à política, como até é o meu caso por vezes, ela não se mostra muito apelativa. Tenho no entanto de me bater por esta belíssima peça, porque, além de grande material cinematográfico de qualidade, apresenta uma história realmente interessante não só a nível político, social ou cultural, mas também a nível humano.
O início do filme pode ser enganador, mas demonstra-se posteriormente como crucial na compreensão geral da situação. Frost é-nos apresentado como um apresentador “do povo”. Os seus programas são definitivamente de índole popular e a sua vida privada é regada por seduções físicas que lhe dão a alcunha de Playboy. Porque quereria e como poderia um homem destes aliciar Nixon?
A resposta à primeira questão é mista: Frost queria mais popularidade mas também mais respeito; a resposta à segunda é deduzível: pagando a bom pagar; do próprio bolso.

 

Não podemos no entanto cingir-nos a esta simplicidade de situações. Nixon também precisava desesperadamente desta entrevista, e não se tratava apenas de uma questão monetária.
Parece-me que Nixon seria movido por uma vontade de confessar os seus pecados políticos e ao mesmo tempo por um reflexo que via no próprio Frost. Este representava as suas vulnerabilidades, desvantagens e desejos, algo que ficou explicito numa fabulosa cena de um estranho telefonema entre os dois quando a noite já ia longa.
Peter Morgan, o argumentista da peça de teatro e do filme, alterna entre os acontecimentos reais e fictícios com um realismo e timing fenomenais. O resultado é um poderoso e intrigante thriller com o qual Ron Howard constrói um castelo de cartas lenta e excepcionalmente; cada carta, uma tensão – cada vez é mais difícil manter o castelo em pé, mas o resultado final é um clímax surpreendente, mesmo que já conheçamos o final.
Michael Sheen é um impecável Frost, um apresentador que na maioria do tempo se deixa revestir por uma carapaça que esconde a sua verdadeira essência. Uma carapaça de extravagância que esconde um potencial génio da televisão; um dos poucos homens que compreende de facto a camera. A performance de Sheen é, mais uma vez muitíssimo competente, assim como a dos secundários Bacon e Rockwell sobretudo.
Mas o filme pertence a Langella. Frank Langella incorpora todos os gestos, todos os maneirismos que qualquer pessoa que conhecesse ou tivesse visto Nixon lhe reconheceria. O poder da sua interpretação não jaz nas parecenças imediatas: de facto Langella não se parece com Nixon e nunca chega mesmo a imitá-lo. Em vez disso, Langella respira-o, transforma-se na sua personalidade e, de repente, notamos que só podemos estar a ver o próprio Nixon em pessoa.

 

Mas se ainda assim Frost Nixon não alicia os que de política só querem distância, devo dizer que este pedaço de cinema é ainda uma bela introspecção do que é fazer jornalismo sério. Ou ainda melhor, fazer jornalismo para um país inteiro ouvir o que tem e quer ouvir.
Frost/Nixon é um filme sobre o poder. O poder da preseverança, o poder do desejo de regresso, o poder das palavras, o poder da imagem...o poder do poder. Todos estes poderes juntaram dois homens, frente a frente, num embate por vezes violento, por vezes perspicaz, por vezes cru, mas sempre surpreendente. Um embate que os Americanos nunca esqueceram, e que certamente nunca hão-de esquecer.

"Nixon: When the President does it, that means it's NOT illegal!" 

 

8.5/10

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publicado por Close-Up às 08:48
De l00ker a 27 de Janeiro de 2009 às 09:50
Por acaso também foi o último filme que vi! Realmente, acabou por me surpreender pela positiva. O filme (nalgumas cenas se bem me lembro até falam nisso) parece um autêntico combate de boxe, táctico e onde cada gesto pode ser chave para amealhar pontos até ao round final.

Concordo contigo em relação a Frank Langella. Está aqui uma interpretação magnífica!
De Filipe Coutinho a 27 de Janeiro de 2009 às 11:10
Acho que fizeste muito bem em estudar o caso antes. Além de ser fascinante facilita a compreensão a larga escala.

Quanto ao filme, é qualquer coisa de muito bom mesmo. Realização extraordinária, performances perfeitas e uma série de atributos técnicos fabulosos.

9 em 10 quanto a mim.

Além disso, é um forte candidato aos Oscars, sobretudo o magnífica Langella.

Bjs

PS: Continuação de bom estudo :p
De Hugo Gomes a 27 de Janeiro de 2009 às 19:49
Realmente é um grande filme, Frank Langella está impecavel e Michael Sheen surpreende. Em suma; um filme bem apelativo e o debate, electrizante

8/10

Bjs e um bom estudo
De Filipe Machado a 27 de Janeiro de 2009 às 22:10
Olá Catarina. Obrigado pela visita ao Additional Camera. Devo dizer que aprecio a qualidade do teu blog: transmite a ideia de muito trabalho realizado e muita dedicação entregue. Parabéns! Quanto ao filme, ainda não o vi. Todavia, gostaria apenas de sublinhar um aspecto: Langella e Sheen foram os actores que interpretaram a peça de teatro, e por isso mesmo, já conheciam bem os seus papéis. Aliás, Ron Howard só equacionou realizar este filme com estes dois actores. Penso que esta situação poderá também ter sido uma mais valia na elevação da qualidade das interpretações. Estou verdadeiramente convicto que vou gostar deste filme. Parabéns pela excelente crítica!
De Filipe Machado a 27 de Janeiro de 2009 às 22:12
Já agora, inclui o Close-Up na minha secção Additional Cameras. Obrigado!
De CinemaBox a 29 de Janeiro de 2009 às 01:57
Excelente post... por tua culpa fiquei cá uma vontade de ir ver o filme =P
Boa sorte para esses exames ;)
De Dan a 31 de Janeiro de 2009 às 16:48
Este filme parece ser uma versão moderna de gladiadores. Com a destreza e a força das palavras este filme empolga e encanta pela vivacidade das suas representações.

Fantástico! :)

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