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"This ain't the Ark. It's the Titanic!

 

Aparentemente, o apocalipse nem sempre chega sob a forma de ataques alienígenas, pandemias de zombies ou conflitos militares sem precedentes, e o mundo pode despedir-se condignamente da vida sem efeitos especiais e óculos 3D, mas com coração quente.

 

Segundo várias teorias científicas, já aconteceu antes, e poucos sobraram para contar a história que, por ironia no destino, volta a repetir-se.

 

Um asteroide com mais de 100 km de diâmetro encontra-se em rota de colisão com a Terra. Todas as tentativas de evitar o fatal embate falharam, e o fim do mundo, como tantos profetizaram vezes sem conta, chega dentro de 21 dias. O que termina também sem tréguas é o casamento de Dodge, um homem que sempre se resignou a jogar pelas regras e pelo seguro. Um dia, conhece Penny, a vizinha extrovertida mas de coração amolgado por nunca ter encontrado o Amor verdadeiro.

 

 

Estão lançadas as cartas e corpos celestes para uma jornada que tem como destino o reencontro familiar e dos amores perdidos… antes que o prazo de validade acabe e a mercadoria azede.

 

A sátira pouco convencional ao fim dos tempos de Seeking a Friend for the End of the World tem um tom mais meloso e calmo do que aquilo a que estamos habituados vindo deste quadro temático, sendo que a aderência à aventura agridoce de Dodge e Penny também pode ser determinada pela capacidade de encaixe cómico do espectador relativamente à fatalidade que envolve o enredo.

 

O conceito é mais forte do que a execução, o que poderá ser justificado pela parca experiência prévia da realizadora e argumentista no cargo, Lorene Scafaria, que se notabilizou em 2008 pela escrita do argumento da excêntrica comédia romântica ‘Nick e Norah – Playlist Infinita’. Em ambas as funções, Scafaria faz escolhas óbvias e nem sempre brilhantes, mas complementa-as com a presença de refrões ímpares.

 

 

A honestidade cortante de Seeking a Friend for the End of the World é especialmente palpável na primeira meia hora de filme, onde exploramos uma série de reações possíveis (muitas delas bem primordiais) ao prognóstico apocalíptico. O caos instala-se, e desde manifestações públicas de promiscuidade a pais a alimentarem os filhos a álcool, o mundo tenta absorver as últimas experiências que consegue alcançar. E é este tipo de verdades duras – porque talvez se revelasse assim, mais do que de outra forma – que tornam ‘Até que o Fim do Mundo nos Separe’ tão afetante. É a humanidade na sua mais gloriosa imperfeição.

 

Há contudo, uma extrema abundância de fofura. E não me interpretem mal: fofura é bom. Mas a fofura tem de ser muito bem doseada, por perigos de se deixar cair, como diriam os nossos amigos brasileiros, no brega.

 

 

Como vai sendo costumeiro na vaga indie, as escolhas musicais (Beach Boys, INXS, Scissor Sisters, Walker Brothers e muitos outros) são sempre inspiradas e prontas a dizer algo nas entrelinhas sobre o que se desenrola na literalidade da ação.

 

Steve Carell faz o que sabe e traz-nos o homem de sempre – o loser amoroso - com menos pitadas cómicas do que o costume. Do outro lado da barricada, Keira Knightley, numa rara oportunidade de contracenar nos tempos modernos, orienta o personagem mais interessante e misterioso do duo, numa performance bem condimentada pelo espírito livre e natureza otimista. A faísca cómica entre ambos está lá, a romântica… não parece tão clara. Fica sempre no ar a questão – e se eles tivessem sido mesmo e, apenas e só, amigos? O trilho do romance não é um dano irreparável, mas é uma das escolhas convencionais que acaba por enfraquecer ligeiramente o poderio da mensagem.

 

Pelo caminho conhecemos ainda brevemente uma série de personalidades cativantes veiculadas pela presença de cameos da mais alta qualidade e bem auxiliadas pelos dizeres certos.

 

 

Seeking a Friend for the End of the World não é um filme perfeito, seja lá o que isso for, seguindo um arco de road movie algo convencional baseado na noção que é, inclusive, discutida no filme, de que os opostos se atraem. Mas é fácil, demasiado fácil até, desvalorizá-lo como “mais um filme sobre as malvadas profecias Maias” ou uma comédia romântica aparentemente desajustada. Se podíamos ter uma dinâmica relacional diferente entre os protagonistas, uma sátira mais azeda sobre a sociedade ou um final mais irónico? Podíamos. Mas Scafaria cria algo que respeita a inteligência de quem assiste, numa narrativa que não vê necessidade em ser assistida por coincidências pouco credíveis, twists bizarros ou finais batoteiros.

 

O que acabamos por receber está, na verdade, inteiramente explícito no título: uma rendição adorável e honesta sobre a incessante procura humana pelo contacto e intimidade. E esse não é, nem deve ser um propósito menor. Nem hoje, nem no último dia das nossas vidas.

 

7.5/10

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