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Point-of-View Shot - Monty Python and the Holy Grail (1975)

por Catarina d´Oliveira, em 09.05.12

 

"I fart in your general direction. Your mother was a hamster and your father smelt of elderberries".

 

 

Pythonesque”, ou em português algo parecido com “pythonesco”, é hoje uma palavra com presença oficial em vários dicionários britânicos, descrevendo alguma coisa com humor absurdo, surreal e imprevisível.

 

Terry Jones, um dos membros dos Monty Python, admitiu-se desapontado com a existência de tal termo, afirmando que o objetivo inicial do grupo era criar algo novo e de categorização impossível: “o facto de a palavra “pythonesco” estar agora no Oxford English Dictionary mostra o quanto falhámos”.

 

 

Tendo ou não originado uma nova palavra no léxico universal, não seria um ultraje, nem aqui nem em Marte, considerar Monty Python uma autêntica instituição do humor. Estando para a comédia como os Beatles estão para a música, o grupo britânico é tido como um dos mais irreverentes de que há memória, e os parentes mais ricos do bom humor non-sense. A sua influência é hoje imensurável, e por isso mesmo, inegável – desde South Park aos nossos Gato Fedorento, a fonte de inspiração de inúmeros comediantes está incontornavelmente neste grupo de seis tipos que parecem não funcionar bem com a caixa dos pirolitos.

 

O fenómeno cultural rebentou no fechar da cortina dos anos 60, e pode dizer-se que se estendeu de muito boa saúde até ao momento em que estiverem a ler esta crítica, seja lá quando isso for. A televisão, o teatro, a literatura, a música e a indústria de jogos renderam-se aos seus encantos, e o Cinema, claro está, também o fez.

 

 

Volvidos quase 40 anos do seu lançamento nas salas de Cinema, parece um quanto desprovido de sentido dedicar algumas linhas à análise de um título tão icónico como Monty Python and the Holy Grail, o primeiro filme lançado pelo grupo (se pusermos de parte And Now for Something Completely Different, que consistia numa coleção de sketches do programa Monty Python's Flying Circus). Mas a mescla de gana de conquistar novos fãs com o lançamento recente de uma impecável e imperdível versão em blu-ray do clássico do grupo britânico pareceu-me uma oportunidade demasiado preciosa para desperdiçar.

 

Tirando os clássicos e os objetos de culto, o Cinema vê no tempo um dos seus piores inimigos. As referências, as piadas, as alusões e até o comportamento dos atores e da câmara (já para não falar do resto), mudam e evoluem, e muitos filmes cessam a sua existência no seu sentido mais lato no dia de Amanhã. Para as comédias isto é especialmente verdade – as piadas sobre o facebook não serão eternas. Mas Monty Python and the Holy Grail tem aquele dom raro de continuar tão hilariante e fresco como provavelmente o foi no seu dia de estreia.

 

 

No ano de 932 D.C., o rei Artur consegue convencer Sir Lancelot, Sir Galahad e Sir Robin a juntarem-se à irmandade da Távola Redonda. Depois de uma aparição divina, os bravos cavaleiros partem em busca do… wait for it… muito apetecido Cálice sagrado.

 

Infelizmente, não são raras as ocasiões em que saímos da sala de cinema com um sentimento de defraudamento – “Boa! Afinal, todas as piadas daquela porcaria mascarada de filme estavam no trailer”. Mas felizmente, ainda há aqueles que desafiam a norma, e mesmo do alto dos seus quase 40 anos de existência, Monty Python and the Holy Grail é um desses exemplares. Na verdade, os seus gags são tantos e tão bons que é quase sintomático que não prestemos atenção a mais nada – num ambiente populado por cotos humanos que recusam aceder à derrota e cavaleiros que dizem “Ni!”, é difícil atentar na precisão do design dos sets e atenção ao detalhe ou no rigor do guarda-roupa e costumes de época, por exemplo.

 

 

Os Python utilizam a sátira para expor algumas das mentiras que certamente existirão na literatura inglesa, que pinta os cavaleiros como seres infinitamente nobres e sagrados, algo que não devemos encarar como mero gozo desprovido de sentido, mas uma crítica consciente das convenções impostas pelos antepassados que tantas vezes receamos contestar. Mas o que se cria naqueles surreais 90 minutos é impossível de transpor para uma página branca, adornada de conjuntos de letras, e ainda mais o é para aqueles que não estejam familiarizados com o seu tipo de humor, que é, não poucas vezes, negro e dotado de uma natureza mais subversiva tornando-o, por isso mesmo, menos mainstream.

 

Muitos fãs do grupo consideram The Life of Brian a melhor incursão cinematográfica do grupo – eu não concordo. Talvez por ter sido o meu primeiro contacto com o grupo britânico, The Holy Grail tem um lugar especial no meu coração, e acredito também que é o filme mais acessível àqueles de vós que se estejam a iniciar nestas lides pythonescas. Cada momento – os cavaleiros que dizem Ni, o coelho mortífero, o cavaleiro negro, o francês ripostador e muitos outros – é pura arte de fazer rir.

 

 

A anarquia é a palavra de ordem, bem como uma completa e consciente indiferença às convenções da estrutura de um enredo e um desinteresse em manter os acertos técnicos a rédea curta. Afinal, ninguém quer ver os Monty Python na procura de um Cinema tecnicamente perfeito e correto. O que procuramos é rir, rir e rir e depois, rir mais um pouco se possível, das coisas mais disparatadas com as quais nos possamos defrontar. Admirar este Cálice é, no fundo, abraçar o absurdo. Mas um absurdo inteligente, capaz de contornar todas as dificuldades – talvez a maior delas tenha sido o baixo orçamento, até ele encarado de uma forma hilariantemente criativa, com exemplo célebre na solução alternativa à impossibilidade de pagar por cavalos verdadeiros no set do filme.

 

Apreciar este Cálice e o trabalho de Eric Idle, Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin, Terry Gilliam e Terry Jones é, no que a Comédia diz respeito, encontrar o pote de ouro no final do arco-íris.

 

 

"We are the Knights who say... NI!!"
 

9/10

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