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04
Fev
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"As long as there are Muppets, for me there is still hope"

 

Antes de começar, devo dizer-vos que, por vezes vezes, uma crítica não é apenas subjectiva. É também emocional. É com grande prazer e o coração ainda meio derretido que hoje vos venho falar do reboot da Disney de um grupo de personagens que marcaram vidas e gerações: os Marretas. Esta é uma crítica completamente parcial, movida pela nostalgia de outros tempos e por uma alegria que há muito um filme não me proporcionava.

Mais de 20 anos passados da morte do seu criador (Jim Henson) e 13 depois do último filme, eis que nos surge o renascer de um ícone colectivo.

O enredo é engenhoso, e na verdade, apenas uma desculpa para cantar, dançar e contar piadas: um empresário petrolífero malvado pretende por as mãos aos estúdios dos Marretas e demoli-los. O nosso gang preferido – auxiliado por alguns coloridos novos amigos - tem de conseguir juntar 10 milhões de dólares para conseguir evitar a tragédia e voltar a ganhar o direito sobre o seu espaço original. Mas antes de conseguir atingir o objectivo, o líder Cocas tem de convencer os seus antigos amigos para a necessária reunião de grupo e a organização de um espectáculo à moda antiga para juntar a soma necessária.
 

 

The Muppets é um autêntico triunfo de simplicidade, alegria, inocência e piadas patetas. Mas é também um triunfo de sentimento, e da manutenção da criança que há em cada um de nós. É mais um espectáculo de variedades do que propriamente um filme, e a passagem dos anos, devo dizer-vos com grande felicidade, não afectou o grupo de fantoches nem um pouco. Nem sequer os temos de ver numa “versão melhorada por computador” ou com uns sempre (in)cómodos óculos 3D.

Os Marretas surgem-nos como sempre foram, e isso é tão reconfortante como uma caneca de chocolate quente numa noite fria. É esperto sem ser cínico, e inteligente sem ser complacente. As gargalhadas não virão apenas dos miúdos mas também dos graúdos, e isso é uma garantia que vos deixo.

 

É possível (ou bastante provável) que o interesse de um grande estúdio em reavivar um franchise de sucesso como o dos Marretas seja puramente comercial. Mas The Muppets nunca parece uma manobra de marketing oportunista. Na verdade, este é um daqueles filmes em que quase conseguimos ouvir o seu coração bater entusiastica e apaixonadamente. Isto deve-se, muito provavelmente, a Jason Segel, o grande impulsionador do projecto e um enorme fã do culto Marretas – se bem se lembram, em Forgetting Sarah Marshall, o seu personagem tinha o sonho de realizar um musical de fantoches, uma clara referência aos ícones dos anos 70/80 que surgem agora como uma espécie de extrapolação desse projecto, e que se revela com afecto no trabalho de um fã devoto.

 

 
Além de Segel, a "makeover" é encabeçada pelo realizador James Bobin e pelo co-argumentista  Nicholas Stoller. E é bom ver que além de paixão, os criadores desta versão moderna dos Marretas também demonstram um enorme respeito pelo passado.

A banda sonora merece destaque por si mesma: sempre energética, umas vezes hilariante, outras reflexiva, junta clássicos como "The Rainbow Connection" (uma das canções mais amorosas de sempre, devemos dizer), com interpretações de êxitos pop modernos, com material novo, como a alegre "Life’s a Happy Song" ou a possivelmente oscarizada "Am I a Man or Am I a Muppet?".


Até pode ser que The Muppets não venha a ser recordado com pompa e circunstância na timeline dos fãs mais fervorosos da série original de Jim Henson, mas este é um tributo com alma, e que não deixa ninguém envergonhado pela lágrima que inevitavelmente molha o rosto perto do final.

 

 

Sim, há cameos substancialmente melhores que outros. Sim, a inocência do filme é quase prejudicial - não podia uma das celebridades abrir os cordões ao bolso e salvar os Marretas de uma vez? Ou mesmo a própria Miss Piggy ou Gonzo, que não pareciam nada mal na vida… Sim, tem o formato tão americano de um “episódio em tamanho Super Size”. E sim, a energia baixa indubitavelmente sempre que o foco da acção se vira para os personagens humanos ou mesmo para o jovem Walter, que apesar de numa viagem inspiradora ter ganho um lugar entre o gang, não me parece na realidade “Muppet Material”. Mas sinceramente, depois de uma experiência tão feliz como estas, quem é que se importa com isso?

No filme, os Marretas foram esquecidos pelo público que habita um mundo cada vez mais cínico e violento. Esta é uma linha de narrativa que nos direcciona a duas conclusões-chave: Primeiro, que é preocupante que a cultura do entretenimento actual nos permita não ficarmos demasiado surpreendidos por haver um reality show fictício chamado "Punch Teacher" cujo objectivo está literalmente explicado no seu título. É este o mundo em que vivemos, e enquanto isso possa devastadoramente indicar que não há lugar neste mundo cão para alguém como os Marretas, é simultaneamente um indicador gritante de que precisamos desesperadamente do seu génio de volta.

E em segundo lugar, que todos os envolvidos na criação deste reboot têm consciência de uma outra dificuldade; a certa altura, Cocas canta com mágoa "Would anybody watch, or even care? Or did something break we can't repair?". Esta é uma pergunta que não vai apenas de encontro à constatação de que vivemos num mundo cada vez mais duro e plastificado, mas que questiona se será possível um regresso digno depois do fim de um ciclo, que terminou com a perda de um líder visionário (Henson). Eu diria que sim.

 

 

Não serve de nada chamá-lo um grande filme, ou um dos melhores do ano, porque nunca foi disso que se tratou. É claro que existem filmes com melhores argumentos, enredos, realização ou até com melhores piadas. Mas isso nunca interessou.

O que importou sempre foi por um sorriso na cara do espectador mais carrancudo. E os Marretas mostram uma vez atrás da outra aquilo que o entretenimento puro deveria sempre almejar. Foi isso que os tornou fenómenos, e foi isso que lhes garantiu um lugar no nosso coração.

O filme declara que a gargalhada é a terceira melhor prenda que podemos receber, logo a seguir a crianças e gelados. Fazer rir não é fácil, mas acho que fazer sorrir é ainda mais difícil. E o sorriso genuíno que vi na cara de todos os espectadores da sala de cinema mal as luzes se acenderam tem de garantir aos Marretas um lugar cativo nessa lista.

 

 

10/10

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publicado por Close-Up às 19:10
De André Clemente a 22 de Fevereiro de 2012 às 18:44
gostei muito do filme vi-o hoje...a crítica óptima como sempre e percebe -se ao lê-la perfeitamente o teu 10
De Close-Up a 22 de Fevereiro de 2012 às 19:05
sim, há filmes que te tocam de uma forma muito especial; e o que senti na sala de Cinema naquele dia, bom... acho que nunca tinha sentido, acho que nunca tinha visto tanta alegria numa sala.

Só por isso já valia o 10 :,)

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